O que dizem as tatuagens de Colin Kaepernick


Você sabia que o quarterback do San Francisco 49ers, Colin Kaepernick, tem tatuagens? Se a resposta for negativa, agora sabe depois de ver essa imagem acima; e na próxima partida do time californiano você prestará mais atenção. Acompanho Kaepernick desde a Universidade de Nevada, época que começou a fazer os desenhos em seu corpo. Não os notava porque a prioridade era analisar as atuações do atleta; e outra: muitas vezes usava mangas que cobria seus braços, parte com as tatuagens mais expostas, logicamente (observadas claramente, graças a uma regata, no Combine de 2011).

Porém passei a reparar nelas após um jornalista do site American Online (AOL), David Whitley, escrever um texto criticando as tatuagens de Kaepernick – ele teve o insight ao ver um touchdown que o QB anotou ao cruzar a linha da endzone esticando seus braços, com a imagem da TV deixando nítidos os desenhos.

O trecho do texto de Whitley, publicado no site da revista Sporting News no dia 28 de Novembro, que chama mais atenção e causou controvérsia é este:

Quarterback da NFL é a suprema posição de influência e responsabilidade. É o CEO (diretor executivo) de uma organização de elite, e você não quer que seu CEO tenha aparência de quem acabou de receber liberdade condicional”.

Que criminosos são adeptos de tatuagens não é novidade, entretanto quem garante que diretores executivos, embaixo dos seus ternos importados, não tenham uns desenhos na pele também? Ter tatuagem automaticamente desqualifica a pessoa de exercer cargo de liderança? Como julgar negativamente alguém simplesmente por ter tatuagens?


Embora seja preconceito e inconstitucional, empresas utilizam o fator tatuagem para eliminar candidatos em entrevistas de emprego. Quem tem uma tatuagem mais visível (braço, pescoço) dificilmente será favorecido num cargo que é necessário ter contato com o público, por exemplo. O entrevistador pode omitir esse motivo da dispensa, porém a probabilidade desse critério ser utilizado é imensa. Até em concursos públicos essa avaliação é levada em consideração, mas um desembargador de Santa Catarina decidiu contra a atitude discriminatória.

Um candidato a soldado da Polícia Militar de Santa Catarina foi excluído, em 2010, da quarta fase do concurso (exames físicos) por ter uma tatuagem. Ele entrou com um mandado de segurança e a 3ª Câmara de Distrito Público do Tribunal de Justiça do estado sulista decidiu, em Setembro deste ano, unanimemente a favor do candidato, determinando que “... tatuagem não é condição que incapacite aprovação...”. O relator da sentença, o desembargador Cesar Abreu, corroborou:

A exclusão de candidato de concurso público, baseada no simples fato de possuir uma tatuagem, além de ser discriminatória, contraria os princípios constitucionais de razoabilidade e da proporcionalidade”.

Isso na esfera pública, e no mundo corporativo? As empresas, por ser privadas, podem fazer o quem entendem ser o correto – ou seja, o que é de seu melhor interesse?

Certa vez ouvi numa palestra a história de um sucedido corretor de imóveis de uma empresa líder do setor. Em dois anos no cargo, trabalhando todo dia engomado em ternos chiques, era o principal vendedor, mais efetivo e rentável. Encerrou bem o segundo ano e ganhou férias com direito a um altíssimo bônus de gratificação. Optou por descansar no litoral e, por coincidência, encontrou seu chefe na praia. Quando ele o viu sem camisa, com várias tatuagens no busto, disse com um ar jocoso: “Se soubesse que tinha todas essas tatuagens, jamais teria lhe contratado”. Ao voltar das férias o vendedor recebeu carta de demissão...

Um quarterback tatuado é raro. Nada que justifique um julgamento exagerado como feito, por mais que seja a opinião do jornalista que é averso a tatuagens. Para Whitley as tatuagens de Kaepernick dizem que o jogador não é capaz de ser líder; não é o personagem ideal para exercer comando devido à arte em sua pele. Aquelas que estão no braço e podem ser vistas, pois Whitley não faz igual juízo quando fala de Ben Roethlisberger, quarterback do Pittsburgh Steelers que venceu dois Super Bowls nos cinco primeiros anos de carreira na NFL. Big Ben, como é conhecido, tem uma tattoo no lado direito do seu torso que diz courage. O jornalista argumenta que a tatuagem não é visível quando o QB está com uniforme...

E Kaepernick tem duas (enormes) tatuagens que não ficam amostras quando está em campo: uma nas costas e outra no peito.


O quarterback dos 49ers poderia voltar aos tempos de Nevada e vestir as mangas longas; razão aos críticos. No jogo contra New England Patriots, no marcante Sunday Night, com frio e chuva, Kaepernick escolheu entrar em campo como se estivesse no calor franciscano (foto acima). E se usasse, não só nessa partida mas em outras, ele então seria um atleta apto à função de “CEO”? Quem garante que os verdadeiros CEOs da NFL não têm tatuagens?

É possível contar a história de um desses CEOs, de um dos clubes mais bem administrados da NFL. Jim Irsay não é apenas o diretor executivo do Indianapolis Colts, é o dono da franquia. Admirador do classic rock, Irsay arrisca solos na guitarra, lazer para ele quando frequenta bares. Faz isso e deixa o terno de lado, usa camisetas que deixam aparecer uma marca que tem em seu ombro direito: uma ferradura de cavalo, símbolo dos Colts.


(GL)
Escrito por João da Paz

Montando um time vencedor: o exemplo do Atlanta Falcons


Com uma campanha na temporada 2012-13 de 12 vitórias e 2 derrotas (até 22/12), o Atlanta Falcons é considerado um dos favoritos na disputa do título da NFL. Tem o segundo melhor retrospecto da liga, atrás do Houston Texans. Esse status vencedor vem desde a transformação que a cúpula da franquia implementou na gestão esportiva, contratando Thomas Dimitroff para ser o diretor de football (GM) no ano de 2008. As duas temporadas anteriores a sua chegada tiveram mais derrotas que vitórias; a era pós Dimitroff apresenta cinco campeonatos seguidos com aproveitamento acima dos 50%.

Reflete na atual temporada o trabalho apregoado pelo GM, que ganhou relevância na NFL quando assumiu o comando dos Falcons. O seu pai, Tom, jogou como quarterback no então Boston Patriots (hoje New England), porém o contato com a bola oval começou em Cleveland quando pintava as linhas do gramado para os Browns. Lá conheceu Scott Pioli em uma brincadeira despretensiosa. Criado o laço que o ajudaria.

A vida levou Thomas para lugares inusitados – chegou a treinar time de football no Japão. Quando Pioli entrou nos Patriots ele contratou o garoto que conhecera em Cleveland para ser um dos scouts (olheiros) do clube. Thomas ficou na equipe de scouts em 2002, passando a ser Diretor dos Scouts Universitário em 2003, permanecendo no cargo até 2007 antes de ir para Atlanta.

Estar com Pioli, diretor multi vencedor que levou pra casa o prêmio da revista Sporting News como executivo do ano por dois campeonatos seguidos (2003-2004), contribuiu para Thomas aprender a artimanha de construir um time vencedor, não bem sucedido apenas numa temporada, mas capaz de manter uma consistência. Ele assimilou direitinho as lições e descobriu o caminho do sucesso. Nesses cinco anos com os Falcons, Thomas ganhou dois desses prêmios da Sporting News, o mais importante dado para executivos: levou um em 2008 e outro em 2010.

A sua primeira temporada, de 2008, ditou o ritmo do que viria pela frente. Como ele conseguiu colocar os Falcons no topo da Conferência Nacional (NFC)?

ATAQUE

Tudo começa pelo quarterback, por mais que argumentem o contrário. A posição mais importante no esporte teve tratamento prioritário no draft de 2008. Thomas, com toda a experiência em observar jogadores universitários, sabia que era o momento de escolher um jogador chamado de “franquia” e que não poderia desperdiçar a boa chance que tinha em mãos. Somente dois quarterbacks de elite disponíveis ameaçaram a segurança que o clube tinha por ter a terceira posição no draft.

Quem causava perigo era o Baltimore Ravens, que pretendia trocar escolhas com o Saint Louis Rams (nº 2) e pegar Matt Ryan (Boston College). Acabou não acontecendo e os Falcons ficaram com Ryan – Ravens fez duas trocas (com Jacksonville Jaguars e Texans) e escolheu Joe Flacco (Delaware) na 18ª posição.

Não é apenas o quarterback importante, é necessário protegê-lo e Thomas, na segunda escolha do time no draft, 21ª posição, ficou com offensive tackle Sam Baker (USC). Além disso buscou um corredor à moda antiga, Michael Turner, melhor running back disponível no mercado de agentes livres, para dar segurança ao garoto. Coloque na conta o excelente receiver Roddy White, que já estava no elenco.

O tight end top veio no ano seguinte, numa negociação que Thomas fez com Pioli, agora no Kansas City Chiefs. Buscou o respeitado jogador Tony Gonzalez, cedendo uma escolha de segunda rodada do draft de 2010 na troca. Nesse draft de 2010 a concentração voltou a ser dada à proteção de Ryan, com aquisições de dois guards.

Em 2011 os Falcons causaram alvoroço na NFL, pois queriam de qualquer jeito um jovem wide receiver elite para fazer par com Roddy White. Os alvos em questão eram o atleta da universidade local AJ Green (Georgia) e Julio Jones (Alabama). Detalhe: a escolha de Thomas no draft era a 27ª... Os rumores (que concretizaram) davam conta que o Cincinnati Bengals, com a 4ª posição, escolheria Green. Subir tanto assim na tábua do draft não era bom negócio. Entretanto uma movimentação parecida foi feita e os Falcons deram 4 escolhas de draft (3 em 2011 e 1 em 2012) para os Browns e ficaram com Jones na 6ª posição. E, para substituir Turner após o expirar o contrato de seis anos, assinado em 2008, Thomas agiu com precisão ao pegar o RB Jacquizz Rodgers (Oregon State) na 145ª escolha, 5ª rodada.

No draft deste ano a dedicação para a linha ofensiva voltou a ser ressaltada ao serem escolhidos um center e um offensive tackle.

DEFESA

A fabricação da defesa do atual elenco dos Falcons é mais impressionate: dos 11 atuais titulares, 6 vieram via draft por escolha de Thomas e 2 foram contratados pelo GM – esses oito destaques estão marcados abaixo em negrito.

O primeiro draft do novo diretor teve como prioridade o ataque (lembrando de Thomas DeCoud, safety/California, draftado na 98ª posição, 3ª rodada). Logo, 2009 foi a vez da defesa: escolhidos Peria Jerry, defensive tackle (Ole Miss) na 24ª posição e William Moore, safety (Missouri) na 55ª posição, 2ª rodada.

2010 marcou o ano de prosperidade defensiva para os Falcons: escolheram Sean Weatherspoon, linebacker (Missouri) na 19ª posição e Cory Peters, defensive tackle (Kentucky) na 83ª posição, 3ª rodada. Thomas abriu o cofre da franquia e contratou no mercado de agentes livres o exímio cornerback Dunta Robinson por US$ 54 milhões/6 anos.

A aposta de 2011 foi o defensive end Ray Edwards, jogador proeminente no Minnesota Vikings, mas que não deu certo em Atlanta. Após ter assinado um contrato de 5 anos, Thomas demitiu Edwards em Novembro deste ano - única (?) falha do GM. Via draft veio o linebacker Akeem Dent (Georgia), 91ª posição, 3ª rodada.

Thomas aprendeu com o erro e arriscou num jogador mais confiante em 2012. Cedeu uma escolha de sétima rodada do draft de 2012 para o Philadelphia Eagles em troca do cornerback Asante Samuel. Ótimo negócio e Thomas tem uma história com Samuel, poiso jogador teve indicação do então olheiro dos Patriots no draft de 2003.


(GL)
Escrito por João da Paz
© 1 Kevin C. Cox / Getty Images

Um cogumelo verde para Anderson Varejão


O pivô brasileiro do Cleveland Cavaliers, Anderson Varejão, jogou menos da metade dos jogos possíveis nas últimas duas temporadas da NBA: 56 de 164. Com a saída de Zydrunas Ilgauskas, pivô lituano, ele assumiu a titularidade e a liderança do time sem LeBron James. Mas as lesões no tornozelo direito e no pulso direito fizeram com que ele ficasse ausente das quadras, afetando sensivelmente seu valor. Tudo revertido no atual campeonato, responsável por dar sobrevida ao atleta brazuca.

O primeiro jogo da temporada mostrou dois dados assustadores a favor de Varejão: no duelo contra o Washington Wizards ele deu 9 assistências e pegou 23 rebotes, ambas as marcas as maiores da carreira. Os jogos subsequentes provaram que a atuação na estreia não foi um acaso e sim começo da nova fase.

Mesmo os Cavs sendo uma desgraça (embora tenham o brilhante Kyrie Irving), Varejão fincava seu nome na mídia local pelas atuações acima da média, ganhando assim destaque no cenário nacional e rumores de troca. Seu valor aumentou.

Um dos pontos chaves desta campanha do brasileiro foi contra o Brooklyn Nets no dia 13 de Novembro. Na partida anterior, contra o Oklahoma City Thunder, o pivô marcou meros 6 pontos. Dois dias depois, versus o alvinegro de New York, Varejão anotou 35 pontos, maior marca da carreira (adiciona aí na conta 18 rebotes). Conseguir as maiores marcas da carreira, nos três principais fundamentos do basquete, em apenas 8 jogos até então, simboliza o quanto o atual momento é especial.

Selecionado pelo Orlando Magic na 30ª escolha do draft de 2004, o camisa 17 dos Cavs, um dos favoritos dos torcedores de Cleveland, nunca desfrutou de tanto prestígio como agora nas nove temporadas disputadas no melhor basquete do mundo. Ter 14.3 PPJ e 14.8 RBJ na temporada 2012-12 (estatística de 14/12) traz bons ares e o coloca em uma privilegiada situação: desfruta de uma admiração tremenda dos fãs da franquia e atrai interesse de outras grandes organizações da NBA.

Cavaliers é um dos últimos colocadas da associação em folha salarial. Varejão é o jogador mais bem pago do clube: US$ 8 milhões neste ano – é o segundo brasileiro com maior salário na NBA, Nenê é o primeiro com US$ 13 milhões. É, no sentido financeiro, o atleta mais valioso da franquia, mesmo status da sua importância intangível, símbolo da equipe. Mas e no sentido tático/técnico?

Em especial do Grandes Ligas de 2009, eu e o Dênis do Bola Presa respondemos a pergunta: Qual jogador brasileiro tem mais potencial para crescer? As respostas...

Dênis: Quem não para de evoluir e quem eu acho que mais vai crescer nos próximos anos é o Varejão (...) em um futuro próximo ele pode ser peça importante em todos os setores do jogo para os Cavaliers

Eu: Varejão (...) Toda diretoria e comissão técnica gostam da vontade que Varejão demonstra a todo instante que entra em quadra e reconhecem o seu valor, sabendo o quanto ele pode melhorar em diversos fundamentos – o contrato de 6 anos (US$ 42 milhões) assinado depois da temporada passada exemplifica isso.


Restam dois anos de contrato. Em 2013 o salário aumenta para US$ 9 mi; em 2014 chega a US$ 9,7 mi. Em 2015 torna-se agente livre sem restrições, ou seja, pode negociar diretamente com qualquer clube – e os Cavs não recebem nada. O momento maravilhoso do brasileiro cria um imbróglio a ser resolvido pela diretoria. Uma lista de prós e contras relacionados a troca de Varejão deve ser feita e o final dirá: é melhor negociá-lo.

Por quê? Veja, puramente visando levar vantagem. A tal “importância intangível” é difícil obter. A identificação que Varejão tem com os Cavs é bem peculiar, porém há potencial de alcançar isso com Irving (ou até mesmo com Dion Waiters ou Tristan Thompson). Trocar o pivô faz sentido, ainda mais quando são analisados os pacotes oferecidos.

Isso mesmo, pacotes.

O nível de representatividade que Varejão atinge neste começo de campeonato é demonstrado nos boatos que o circundam. Não é um jogador por outro – ou jogadores ditos “meia-boca”. São jogadores de alto calibre envolvidos nessas conversas. Logo é hora de aproveitar, pois por mais que os Cavs passam por essa draga de dá dó, existe possibilidade de crescimento devido a folha salarial baixa (espaço para contratar agentes livres) e boas escolhas no draft de 2013 (2 na primeira rodada e 2 na segunda rodada) – acrescentando o bônus numa troca do Varejão.

O que rola nos bastidores é que foram oferecidos aos Cavs por Varejão:

- Thaddeus Young e Dorell Wright (Philadelphia 76ers)
- Terrence Jones, Patrick Patterson e Daequan Cook (Houston Rockets)
- Paul Milsap e Enes Kanter (Utah Jazz)

E a melhor oferta (por enquanto), aquela que é boa para todas as partes envolvidas:

- Kendrick Perkins, Jeremy Lamb, Reggie Jackson e Perry Jones III; mais escolhas no draft (Oklahoma City Thunder)

Os Cavs receberiam o pacote de mais qualidade e o brazuca aproveitaria a boa fase num time competitivo que disputa títulos.

Novamente o brasileiro teria chance de disputar uma final da NBA, coroando atuações que o colocam na discussão para participar do Jogo das Estrelas em Houston no ano que vem. Convívio novo para ele que, embora lide com lesões delicadas, revigorou e aprimorou seu jogo. Efeito esse que lhe deu um contrato de “estrela”, atuando sob outros holofotes ao lado da apresentadora Ana Hickmann: Varejão assinou contrato com o Bradesco (HiperFundo) e será garoto propaganda do banco.

Uma vidinha a mais o ajudou.

(GL)
Escrito por João da Paz
© 1 Pop Bola Esporte Clube
© 2 Getty Images

Dois artigos especiais

Um convite aos leitores do grandes ligas: leiam estes dois textos que escrevi

- "Gosto de futebol e não sou clubista: sim é possível!" que está no blog do Vítor Sergio Rodrigues (Esporte Interativo). Trato sobre como é a paixão do torcedor com seu time preferido e aversão com a equipe rival. Será que alguém pode gostar de futebol e não torcer pra clube algum?

- "Era da informação ou da afirmação?" que está no site Observatório da Imprensa. Abordo aqui o caso Jovan Belcher, jogador da NFL que matou sua namorada e cometeu suicídio horas depois. Repercuto o comentário do jornalista Bob Costas (NBC) no Sunday Night Football da semana passada quando ele mostrou-se contra a "cultura de armas" nos Estados Unidos. Opinião afirmativa ou informativa?

Obrigado!

Tudo é vaidade – mesmo com solidariedade


O gesto da cheerleader do Indianapolis Colts, Crystal Anne, ganhou destaque além do mundo da NFL. Ela (foto acima) raspou a cabeça e chamou atenção de todos que receberam a notícia pelo motivo: mostrar compaixão ao treinador do time, Chuck Pagano, que foi diagnosticado com leucemia em Setembro desse ano e desde então passou por duas quimioterapias; segundo o doutor que cuida do coach, Larry Cripe, a doença está em "completa regressão".

A franquia Colts apoia incondicionalmente Pagano, por mais que seja um membro recente da organização, chegou em 2012. Vinte e cinco jogadores do elenco rasparam a cabeça em demonstração de apoio ao treinador. Até aí tudo bem, pois é normal ver homens carecas. Mas uma mulher fazer essa opção, sem ser por obrigação? Dessa forma a comoção reverberou nessa atitude de Anne.

Blue, o mascote da franquia, apareceu na mídia local desafiando os hoosiers a doarem dinheiro em apoio a campanha Chuck Strong e se a quantia arrecadada ultrapassasse 10 mil dólares a cheerleader, junto com sua companheira de squad Megan Meadors (ex-Miss Indiana), raspariam a cabeça no jogo contra o Buffalo Bills na semana 12 da NFL. O sucesso estrondoso é representado no quanto Blue conseguiu angariar: 22 mil dólares em doze dias (13-24 de Novembro).

Com câmeras focadas em ambas as cheerleaders, o mascote, na lateral do campo, iniciou o corte. As imagens rodaram o mundo e no dia seguinte fotos ganharam sites e jornais, proporcionando comentários fora de contexto. A palavra vaidade apareceu com frequência nas observações feitas, enaltecendo as garotas que decidiram tomar uma atitude difícil para uma mulher: ficar sem as madeixas.

Leia alguns comentários que resumem parte do que pôde ser observado nas matérias relacionadas:

Essas adoráveis garotas tem mais coração do que vaidade. Obrigado!!!” (site Yahoo! US)

As vezes a solidariedade é só um pouco de cabelo. Isso foi bonito, lindas moças abrindo mão de vaidade pelo amor ao próximo” (Portal Terra)

Nem todas as cheerleaders se preocupam com vaidade. Essas garotas tem bom coração!” (Twitter)

Muito bonito o gesto de abrir mão da vaidade para apoiar alguém numa situação tão difícil. Parabéns a elas” (Folha.com)

Incrível ver a vaidade ficar em segundo plano para que uma grande causa receba apoio” (Fórum dos Torcedores dos Colts US)

Porém não há como fugir da verdade: tudo é vaidade!

Salomão, rei de Israel entre 971 a.c. e 931 a.c., teve a responsabilidade de dar seguimento ao governo do seu pai Davi. A grande tarefa fez com que ele pedisse a Deus sabedoria “para que prudentemente discirna entre o bem e o mal, pois quem poderia julgar a este povo?” (1 Rs 3:9). O pedido foi concedido e Deus destacou que ele não pediu riquezas, longevidade, morte dos inimigos... mas sim entendimento. Assim Salomão recebeu “coração sábio e inteligente, de maneira que antes de ti não houve teu igual, nem depois de ti o haverá” (1 Rs 3:12).

Essa sabedoria está registrada em livros. “Eclesiastes” começa com a declaração seca: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Salomão observou comportamentos, situações e chegou a conclusão verídica que nada é feito com puro altruísmo.


Anne tinha um cabelo lindo (foto acima), usado para manter alta a estima, para a deixar mais bonita e até mesmo usar nas coreografias da squad. Raspar a cabeça em frente de milhões, se expor, não é um desapego da vaidade, ainda mais ela que superou a leucemia quando era criança? Sim, porém até certo ponto.

Se por um lado os fios do cabelo deixaram sua cabeça para servir como perucas para crianças que sofrem da doença, Anne passou a ser reconhecida fora das fronteiras da cidade de Indiana, virando assunto nos Estados Unidos e em diversos países – incluindo o Brasil. Contabilizando como um plus comentários que enfatizam a beleza da cheerleader, agora sem o cabelo. A vaidade pode ter saído por um caminho, entretanto voltou por outro.

Desfruta de muito sucesso a campanha Chuck Strong. A famosa e gigante rede de cabeleireiros Great Clips, que cortou o cabelo de Anne, doa US$ 10 a cada cleinte que passar a zero e dizer que é pela causa do treinador Pagano – até o momento, de acordo com a própria Great Clips, mais de US$ 250 mil foram arrecadados.

Quem participa da corrente pratica um ótimo ato, deixando de pensar em si para ajudar o próximo. Comportamento bem quisto e merecedor de exaltação. Mas não dá para mencionar que a vaidade é separada desse proceder. O problema é que a palavra vaidade é muito ligada a aspectos físicos, a beleza.

Vaidade, também, é receber admiração dos outros, o que Crystal – e Megan – receberam com muita razão, aliás.

Como bem disse o escritor (romancista) argentino:

A vaidade é um elemento tão sutil da alma humana que a encontramos onde menos se espera: ao lado da bondade, da abnegação e da generosidade”.


(GL)
Escrito por João da Paz

Sem ufanismo barato, brasileiro faz temporada notável na NCAA


Carente de ídolos esportivos, o povo brasileiro glorifica qualquer um que tem o mínimo de sucesso. No salão mundial dos grandes atletas, o Brasil tem representantes dos mais expressivos e importantes, mas somos especialistas em agir como adolescentes desenfreadas atrás de uma boy band quando vemos um esportista brasileiro desfrutando vitórias, por mais que nem sejam tão representativas. Para não variar, essa pobre mesmice persiste e o alvo da vez é Cairo Santos (foto acima), kicker da Universidade Tulane, que faz temporada magnífica e pode quebrar recorde, ganhar prêmio individual e ser parte da história do futebol americano universitário.

É isso. Isso apenas. Por enquanto, nada mais.

Como vivemos um complexo de vira lata às avessas – comportamento possível de ser observado no tratamento dado ao Leandrinho e Nenê na NBA –, Cairo Santos, por concorrer ao troféu de melhor kicker da NCAA pela temporada 2012-13, é tido por aqui, desde o anúncio dessa premiação na última segunda (19), como “o brasileiro que pode ir à NFL!” e/ou “aquele que pode mudar a cena do futebol americano no Brasil!”.

Menos gente, bem menos...

Ambas as situações podem ocorrer? Sim. Mas estão longe da realidade. Contudo são observações comuns, típicas de quem louva o nadador César Cielo e desfere as mais torpes palavras ao vê-lo ficar com a medalha de bronze na prova dos 50m livre – foi ouro em Pequim na mesma prova quatro anos antes. Torcedor tem direito de opinar e falar o que achar ser correto, mas proferem fundamentos fracos: não conhecem a história dessa competição, não conhecem os outros competidores e não usa o bom senso (porque não sabe utilizá-lo ou porque não tem).

Essa estupidez brasileira, vista no caso Cairo Santos, não é a primeira que as grandes ligas americanas tem a oportunidade de presenciar. O patetismo teve sua melhor forma quando Yan Gomes estreou pelo Toronto Blue Jays na Major League Baseball (MLB). Foram comportamentos esdrúxulos ao ponto que não merece explicação.

A qualidade da piada quando é assunto é kicker brasileiro no futebol americano (NFL) tem pouca consistência atualmente, afinal pessoas falavam seriamente em testar os jogadores Branco (campeão da Copa do Mundo de 1994) e Adhemar (popular atleta que ganhou fama vestindo a camisa do São Caetano). Há três brasileiros próximos de ser um kicker profissional de futebol americano e Cairo é mais um dos que podem conquistar espaço no principal campeonato dos Estados Unidos.

Eddie Camara é quem percorreu o melhor caminho, mas uma lesão o forçou a se transferir para segunda divisão da NCAA. Membro da Universidade Central Arkansas (UCA), o natalense fez high school (ensino médio) numa das mais tradicionais escolas dos EUA com programa de futebol americano: Cedar Hill, estado do Texas. Suas performances foram decisivas, levantando troféu e tudo mais. Recrutado por grandes universidades, escolheu a super poderosa Arkansas, membro da SEC, conferência mais forte da NCAA. Chegou para ser titular, porém a lesão no ACL (ligamento do joelho) que teve em Cedar Hill o traiu: cirurgia! Ficou difícil sua situação na equipe e seguiu conselho do seu treinador Bobby Petrino, como disse em entrevista para o blog em Dezembro de 2011:

Após a recuperação, falei com o treinador que queria jogar, se não aqui [Arkansas] em outra universidade. Por gostar muito de mim, aconselhou que fosse melhor sair para não perder mais um ano”.

Camara é segundanista – duas temporadas na NCAA. Como ficou de “molho” (redshirt) no primeiro ano de faculdade, pode optar por entrar na NFL no próximo draft. Está muito bem na UCA, com um 2012 (83,3% FG) melhor que 2011 (73,7% FG).

Maikon Bonani, kicker da Universidade do Sul da Flórida (USF) é veterano e deve aparecer no draft de 2013 da NFL. O paulista não foi bem na temporada chave, a de júnior (terceiro ano), com um aproveitamento de FG abaixo do ideal: 73% - perdeu 7 field goals. No atual campeonato ele melhorou, errou apenas 4 FGs e está com aproveitamento de 80%, mas não foi chamado para o Senior Bowl, jogo crucial para se apresentar aos scouts (olheiros) da NFL, partida onde atuam apenas jogadores veteranos.

Cairo Santos está se destacando justamente na rotulada “temporada NFL”, com aproveitamento de 100% (20 de 20) e se manter assim, após jogo contra a Universidade de Houston, será apenas o segundo kicker na história da NCAA a chutar – e acertar – +20 field goals. Dos 20 FGs convertidos até agora, 12 foram de +40 jardas, maior número do campeonato.

Sim. Cairo é merecedor de elogios e parabéns; pelo o que fez e não pelo o que pode fazer. Esses números são formidáveis e a Universidade Tulane promove uma campanha especial a favor do paulistano, pois o prêmio que ele concorre, o Lou Groza Award, desfruta de sólido prestígio. Muitos kickers de renome venceram o troféu de melhor kicker da NCAA como Dan Bailey, Nate Kaeding, Sebastian Janikowski (duas vezes), Mike Nugent e o argentino Martin Gramática, que levou em 1997 pela Universidade Estadual do Kansas.

Embora atue numa inexpressiva universidade, Cairo tem currículo escolar bom, oriundo da Saint Joseph Academy, Flórida – estado que, assim como Texas, tem os melhores campeonatos de high school dos EUA. Em 2010 estreou como kicker titular por Tulane, terminando a temporada com 81,3% de FGs. Teve queda no aproveitamento de FG em 2011 com 7 erros em 18 tentados (61,1%). Para mostrar que é mesmo um kicker 100%, precisa manter o nível na temporada de veterano; então ir para a NFL em 2013 não é cogitação plausível / real.

Potencial para tornar-se jogador de futebol americano profissional, digno de aplausos, fora o nacionalismo vergonhoso, Cairo não tem culpa das ridículas expectativas que são postas em cima dele originadas de pessoas que o conheceram nessa semana. Que ele mantenha distância desse pensamento e lembre do que esperava da temporada 2011: após errar apenas 3 FGs como novato, queria ser perfeito na temporada seguinte; não deu. Terá uma segunda chance para tanto na temporada que vem.

Isso é importante para ele. Os ingênuos ficam com as discussões vazias e improdutivas.


(GL)
Escrito por João da Paz
© 1 Tulane Media

Os anônimos do New York ‘Mess’


A burrice reina mais uma vez na franquia que está longe de honrar a liga na qual é afiliada. Profissionalismo? Os Jets, o outro time de New York, não conhece essa palavra. Enquanto os verdes envergonham, os azuis ganham Super Bowls.

Além disso, aqueles fazem com competência o que covardes adoram: falar anonimamente.

Procedem com tanta primazia que vexame deveria contar na tabela de classificação da NFL; estariam na liderança.

O alvo da vez é o quarterback/bloqueador de punt Tim Tebow. O jogador mais popular da liga deixou o Denver Broncos e escolheu ser segunda opção em NY do que ser titular em Jacksonville jogando pelos Jaguars. Escolha que mostrava um potencial de sucesso tremendo, mas está num estado no qual jogadores “sem nome” o chamam de péssimo.

O tabloide nova-iorquino (óbvio) NY Daily News publicou na quarta feira uma reportagem na qual o repórter Manish Mehta ouviu dezenas de jogadores e o rótulo dado acima foi uníssono. Um dos atletas disse “Nós não olhamos para ele [Tebow] como um quartetrback: ele é o ‘cara do wildcat’”.

Tebow é um quarterback sim. Dos melhores? Não. Tem condição pra ser titular de um time da NFL? Sim. Porém a falação infantil, típica de corredores de colégio, é o resultado de uma péssima gestão de quem deve liderar, não somente dos que vestem os uniformes e capacetes, porém dos que chamam as grandes jogadas: Rex Ryan, treinador; Mike Tannenbaum, diretor de football; e Woody Johnson, dono.

Em 2011 o mesmo aconteceu com os Jets: jogadores anônimos zombaram de um quarterback. Mark Sanchez, o titular da posição desde 2009, foi vítima do maldizer baixo. Como visto com clareza, a organização amadora não soube gerenciar o ocorrido e, claro, o erro se repetiu.

Uma vez até que vai, no entanto duas?

O trio Ryan, Tannenbaum e Johnson trouxe Tebow. Com boa administração e objetividade, poderiam aproveitar o melhor do camisa 15. Sua fama estratosférica, no nível de Princesa Kate, Adele e Oprah, tinha condições de trazer boas vibrações para o elenco, ser uma peça de união e atuar com eficiência em campo.

Não usaram para nenhuma das coisas.

Colocaram um quarterback para ser um elemento crucial no time de especialista: bloqueador de punt. O pior não é isso, mas Ryan aparecer em frente de toda imprensa de New York e dizer na cara de pau que Tebow está fazendo um grande trabalho nessa função, elogiando sua obediência. Mais um ponto para a vergonha.

Tebow, no ataque, teve algumas oportunidades, nada de grande proveito. Arremessou 6 vezes e correu 27, passou para 40 jardas e correu outras 92. Produção qualitativa longe do ideal, chamando mais a atenção para problemas e disfunção.

Defender que Tebow jogue com mais frequência não deve ser sustentatado na voz fanática de torcedores que o chamam de vitorioso – quando não é! Timmy tem de estar em campo porque não faz sentido tê-lo no elenco se for para deixá-lo encostado como um jogador qualquer – que ele não é!

É curioso perceber que Tebow, com uma vitória em playoffs, bem significativa contra o Pittsburgh Steelers, recebe tratamento de vencedor, enquanto seu colega de time e posição, Sanchez, ganhou quatro jogos de playoffs (legal, né?) e outro quarterback odiado, Tony Romo, tem o mesmo número de vitórias em playoffs que Tebow, mas chamá-los de vitorioso é contra o senso comum, certo?

Pelo visto, o vestiário dos Jets não pensa igual ao senso comum...

E fica assim, “o vestiário”, porque Ryan marcou uma reunião com todos do elenco e disse que os anônimos se apresentassem. Para surpresa – só que não – nenhum dos delatores levantou a mão.

O que sucedeu em ambos os episódios exemplifica como a franquia espelha o comportamento do treinador, que fala muito - dá bom dia a cavalo - e seus subordinados entendem que podem fazer o mesmo. Qual a moral que Ryan tem pra chamar os jogadores a assumir os comentários anônimos? Ele, com seu discurso inclinado para a motivação mas que acaba trazendo um alvo para o símbolo dos Jets, é responsável pela bagunça que o clube virou. Saiu da neutralidade e adquiriu um colorido, um exagerado colorido.

Um apelido mais apropriado para a equipe é Mess, New York Mess.

Já o rival da cidade é o New York 'World Champions' Football Giants


(GL)
Escrito por João da Paz
© 1 Drew Hallowell / Getty Images

A melhor ação de David Stern: fazer com que os jogadores da NBA se vistam como adultos


O comissário da NBA, David Stern, começou a exercer seu cargo em 1984. Antes do início da temporada 2012-13 Stern anunciou que deixará de ser o comandante da associação em Fevereiro de 2014, encerrando ciclo de 30 anos a frente de uma das principais ligas esportivas do mundo. Entre tantas inovações e conquistas está a mudança que deixou Allen Iverson chatiado (foto acima).

No dia 1º de Novembro de 2005, há 7 anos, Stern impôs o código de vestimenta nos jogadores da NBA, atitude necessária para melhorar a imagem da liga que sofria arranhões sensíveis ano após ano em meio à depressão pós-Michael Jordan. O personagem símbolo dessa campanha, indiretamente, foi Allen Iverson (então armador do Philadelphia 76ers). Com mérito, diga-se, pois este era o look dele:


Não foram muitos atletas que se opuseram ao código, mas Iverson foi um dos que acharam injusto a ordem de como se comportar e se vestir. A legitimidade desta regra da NBA sofreu questionamentos primários, porém com um raciocínio no mínimo coerente chega-se a conclusão que a medida tem suas razões.

A primeira linha do código descreve claramente o objetivo principal: “É obrigatório que os jogadores usem trajes Executivos Casuais em qualquer atividade que representam sua franquia ou negócios da liga”. Ou seja, um pequeno lembrete para que adultos milionários deixassem de se vestir como adolescentes do mundo hip-hop.

O pivô Marcus Camby, hoje no New York Knicks, teve a cara de pau de dizer que a NBA deveria dar aos jogadores um “bônus terno”, grana extra para que pudessem comprar as vestimentas executivas...

Iverson foi mais incisivo. Em entrevista à rede inglesa de notícias BBC disse: “O alvo desta regra são caras que se vestem como eu, caras que vestem hip-hop”. Sim, Iverson foi o bom modelo de como um jogador não deve se apresentar. Ele era a grande estrela da liga e tinha acabado de ser o MVP do Jogo das Estrelas (pela segunda vez) e o cestinha da liga (pela quarta vez).

Uma ação precisava ser feita para corrigir a reputação dos jogadores da NBA, em baixa visto que sofria a rotulação de thug players (jogadores bandidos). Iverson, também à BBC, expôs a verdade que “... se o cara é um assassino, coloca um terno nele que continuará sendo assassino”. Mas como a aparência conta muito, essencialmente numa indústria bilionária que é a NBA, a ordem foi dada e quem teve juízo obedeceu.

O código de vestimenta causou debate sobre o direito do cidadão de se vestir como quiser. Não foi vetado esse direito, inválido sob jurisdição da associação, entidade privada que tem poder para exigir que seus subordinados se comportem de um modo determinado – como fazem as grandes empresas e corporações, por exemplo. Um dos pontos do código fala especificamente sobre a proibição do uso de “correntes, pingentes, medalhões sobre o traje”, artigos típicos da cultura hip-hop. Os contrários argumentavam contra isso usando a lei americana dos Direitos Civis.

A Lei dos Direitos Civis de 1964 é divida em capítulos que discorrem sobre os crimes de discriminação contra raça, etnia, nacionalidade, religião e gênero. No capítulo sete (Title VII) há recomendações sobre o trato com empregados e a proibição de discriminá-los. Não houve sustentação contra o código de vestimenta da NBA porque Stern não ordenou que os jogadores não fossem contratados (ou demitidos, ou desfavorecidos) por se vestir com um estilo específico. Claro, quem não cumpre as normas estabelecidas é multado, mas permanece com seu emprego e status. A ordem imposta tinha um objetivo: manter a... ordem.

A oposição ao código se escorou na hipocrisia ao argumentar que a NBA bania as roupas hip-hop mas usava a cultura como forma de vender o seu produto: músicas rap nas arenas, um vídeo game chamado de NBA Ballers (que exacerba a ligação basquete/hip-hop), aceitação das bermudas longas no uniforme padrão dos times... Contudo, apesar dessas visões contrárias, a aceitação ocorreu com maturidade.

Antes do código as franquias Knicks (New York) e Hawks (Atlanta) tinham uma cartilha similar que os membros precisavam obedecer. Clubes justamente de cidades que tem uma força significativa da cultura hip-hop, locais símbolos do movimento nos EUA. Os membros das franquias entendiam a diferença entre uma coisa (representar o clube) e outra coisa (passear com os amigos).

Jogadores de terno, ou de Executivo Casual, transmitem uma imagem mais respeitosa aos torcedores, aos sócios e aos patrocinadores. Essa era a meta que Stern queria atingir e conseguiu. Fez a NBA ser uma liga “adulta”. Olhe o armador do Los Angeles Clippers, Chris Paul, e note a diferença (Jogo das Estrelas de 2011):


E o hip-hop não foi discriminado, muito menos abandonado. Pôde ser observado nas Finais da temporada passada o estilo nerd que jogadores como Russell Westbrook e Kevin Durant do Oklahoma City Thunder, assim como Dwyane Wade e LeBron James do Miami Heat, desfilaram nas entrevistas coletivas, look popularizado pelos rapppers Chris Brown, Lil Wayne, Kanye West, e Tyga.


Visual mais aceitável do que roupas desproporcionais e fora de contexto. A concretização do ditado act your age.


(GL)
Escrito por João da Paz

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Veja os especiais:

Rappers e os jogadores da NBA - Músicas

Rappers e os jogadores da NBA - Vídeos

Obama versus Romney: As eleições nos EUA e os esportes americanos


O candidato republicano a presidência dos Estados Unidos, Mitt Romney, desafia o democrata Barack Obama na eleição do país que ocorrerá no dia 6 de Novembro. Romney é o concorrente mais perigoso contra o atual presidente dentre os outros 5 postulantes ao cargo de comandante chefe da nação (também estão na disputa: Gary Johnson – Libertariano; Jill Stein – Verde; Virgil Goode – Constitucionalista; e Rocky Anderson – Justiça). Essa eleição é uma das mais acirradas da história, reflexo de um pais polarizado entre liberais (democratas) e conservadores (republicanos), divisão latente e significativa. Com os votos partidários certos, Obama e Romney buscam os indecisos e os que não vão votar. Uma forma de alcançar isso é através dos esportes.

O poder de união que o esporte tem é universal. Une ricos e pobres, gerentes e empregados, e porque não democratas e republicanos. Obama tem certa vantagem nesse quesito, pois está inserido nos esportes desde sua vitória em 2008. Um episódio anual que o destaca é o preenchimento que faz, via iniciativa da ESPN, da tabela dos playoffs do basquete universitário (March Madnness - leia “As escolhas de Obama"). Constantemente é possível notar Obama comentando sobre esportes sem ser de forma executiva, um bate papo sobre o que está acontecendo nos campeonatos. O que cria uma conexão mais íntima com a população, sentimento de proximidade.

Oito anos Senador por Illinois, Obama defende os times da estado e aproveita a honra de receber na Casa Branca (lar oficial dos presidentes americanos) os campeões dos grandes campeonatos do país. Sempre que a oportunidade aparece Obama gosta de soltar uma piadinha defendendo os times de Chi-Town – é fã obcecado dos White Sox (MLB).

Romney tem um envolvimento importante com os esportes, porém não tão natural como acontece com Obama. O candidato republicano, ex-governador do estado de Massachusets (2003-2007), tem a seu favor a missão que aceitou para colocar no prumo a realização dos Jogos Olímpicos de Inverno em Salt Lake City, estado de Utah, em 2002. Antes de assumir a função de ser presidente do Comitê Organizador, os Jogos passavam por uma crise, que foi consertada por Romney. Curioso é que o candidato não usa muito esse trunfo para seu benefício na campanha.

Propaganda paga na TV
Nos Estados Unidos não existe horário eleitoral gratuito (como no Brasil, por exemplo). As campanhas de Obama e Romney investem pesado nos anúncios de TV, inserções comerciais que são cobradas pelas emissoras pelo espaço que naturalmente custa na programação. É uma opção acertada porque (assim como no Brasil) essas inserções são de extrema importância, pois pega o eleitor desprevenido, principalmente o indeciso ou o que não quer votar. Esse eleitor não vai atrás dos candidatos, então é preciso ir até essa fatia da população.

As campanhas de ambos tem entendido onde os telespectadores estão. Tradicionalmente os comerciais eleitorais eram inseridos regularmente nos intervalos de telejornais, séries e/ou novelas. Neste ano tem sido diferente e o foco são os eventos esportivos, aproveitando a quantidade de jogos importantes que ocorrem no momento (NFL, campeonato universitário de football, começo da NBA e final da MLB – World Series). Dentre todos esses, o mais cobiçado são as partidas da NFL, porque atrai mais audiência.

Dados registrados na Comissão Federal de Comunicação dos EUA (FCC), mostram o quanto Obama e Romney tem investido nos comerciais de jogos da NFL. Tudo feito de maneira estratégica e pontual. Não gastam dinheiro, por exemplo, em anúncios de alcance nacional por não ter apelo imediato na campanha e custar caro. O foco é comprar espaços nas emissoras locais de estados que as pesquisas mostram que há um número maior de indecisos. Um desses estados é Colorado e a campanha de Obama gastou US$ 104 mil por um comercial de 2 minutos no jogo entre Oakland Raiders x Denver Broncos, propaganda veiculada na afiliada da CBS em Denver.

Florida é um estado crucial por ter um importante colégio eleitoral, fundamental vencê-lo para faturar a eleição. A campanha de Romney gastou US$ 50 mil por uma inserção (30 seg) na partida entre Miami Dolphins e New York Jets, propaganda veiculada na afiliada da CBS em Miami.

A grana colocada nos anúncios de TV é astronômica. Juntando as duas candidaturas, ultrapassa US$ 1 bilhão! Então tem de ser um dinheiro bem aplicado, o que tentam fazer ao comprar espaços em jogos da NFL nos estados chaves para essa eleição. O total investido nesse tipo de propaganda é o seguinte (pegando apenas os estados chaves: Minnesota, Ohio, Colorado, New Hampshire, Wisconsin, Florida, Michigan e North Carolina):

- Obama: US$ 3 milhões e 300 mil (594 inserções)
- Romney: US$ 4 milhões e 500 mil (767 inserções)

Política versus Esportes
Há quem não gosta de envolver política e esporte, mas é inevitável. Donos de clubes da NFL, MLB e NBA apoiam um ou outro candidato e fazem doação de dinheiro às respectivas campanhas. O dono do Atlanta Braves, Gregory Maffei, doou US$ 157 mil para Romney; um dos donos do Los Angeles Dodgers, Magic Johnson, doou US$ 65 mil para Obama. Apesar de existir pluralidade a maioria dos donos de clubes das 3 ligas apoiam Romney.

Os torcedores ficam céticos com esses apoios, mas nada podem fazer pois os donos tem o direito de apoiar quem bem entender. Fãs não querem misturar política e esportes, ou ao menos diminuir a intensidade dessa relação. Grande parte deles preferem que os políticos não se intrometam em assuntos esportivos, entretanto há discussões que o congresso americano e o presidente opinam sobre – e recebem pedidos para intervir: concussões nas competições esportivas (destaque para o football / NFL), custo exorbitante dos acordos entre as ligas e emissoras de TV pelo direito de transmissão dos campeonatos, doping e playoffs no futebol universitário.

Romney, por mais que não demonstre envolvimento com esportes igual ao seu rival, se eleito terá que mostrar maior engajamento. Com Obama é natural até, e isto inclui a primeira dama Michelle, que implantou um programa altamente popular que visa combater a obesidade infantil, aplicado nas escolas com exercícios físicos e alimentação balanceada.

E Obama é um “jogador” de basquete. Organiza peladas na Casa Branca e convida jornalistas especializados e amigos. O atual presidente tem o rótulo de “jogador” enquanto seu antecessor, Geroge W. Bush, tem no histórico a função de cheerleader quando estudava na Universidade Yale (saiba mais em “Bonito e Perigoso”). Entre todos os presidentes dos EUA, o mais atleta foi Gerald Ford (serviu de 1974 a 1977), que foi MVP e campeão nacional jogando pela equipe de football da Universidade de Michigan.


(GL)
Escrito por João da Paz

NFL e o mundo das apostas


Na tentativa de explicar porque a NFL desfruta de tanta popularidade, uma das razões ditas são as apostas. Apesar de ilegal em grande parte dos Estados Unidos (apenas em quatro estados é permitida), as apostas esportivas geram milhões de dólares e outros lugares querem legalizá-las para poder controlar a enorme quantidade de dinheiro envolvido, eliminar criminosos e agregar o arrecadado em impostos.

Mas não é tão simples. A NFL é extremamente contra apostas e sustenta sua defesa na pureza do esporte, dizendo que se for liberada, pode corromper o jogo, com os jogadores (por exemplo) sendo ativos operantes influenciando em um lance para que um placar desejado seja feito.

Primeiro: a NFL foi fundada por apostadores! Tim Mara, pai do New York Giants, era um grande apostador em NY; Art Rooney, do Pittsburgh Steelers, também (este com pistas de corridas de cavalos, que a família possui até hoje); e William Barron Hilton do San Diego Charges (filho do criador da Corporação Hilton Hotels – Conrad Nicholson; atualmente o Las Vegas Hilton é a maior casa de apostas esportivas dos EUA).

Segundo: a NFL permite que loterias estaduais usem os logos dos times – e da liga – para jogos oficiais.

Uma lei federal americana, sancionada em 1992, baniu apostas esportivas em todo o país, menos nos quatro estados que tinham anteriormente legislação acerca desta atividade: Montana, Oregon, Nevada (onde fica Las Vegas) e Delaware. Um estado não entrou nesta restrita lista e agora quer legalizar as apostas por bem ou por mal.

New Jersey (estado vizinho de New York) tentou no começo da década de 90, mais precisamente em 1991, criar uma lei sobre, mas perdeu prazos e ficou de fora. O atual governador do estado, o republicano (direita/conservadora) Chris Christie desafia os EUA e diz que vai permitir que sejam feitas apostas esportivas (principalmente da NFL), dentro das fronteiras do estado – casa de Atlantic City, point dos cassinos na costa leste americana.

Em Novembro de 2011, Christie fez um referendo e numa votação 2 por 1 a população local aprovou a legalização das apostas esportivas. Em Maio deste ano o governador disse que até Dezembro de 2012 os cassinos e outros locais que queiram entrar no ramo vão ser regulamentados. Christie [foto abaixo] foi além:


Se eu espero que ações judiciais contra nós? Sim! Mas estou confiante que seremos bem sucedidos. Que eles venham e tentem nos parar”.

E eles foram. A NFL, em conjunto com a NCAA, MLB, NBA, protocolou um processo federal contra o estado de New Jersey no final do mês passado. A reclamação é baseada na lei promulgada em 1992. Na ação vigente, por enquanto, não há novidades – a não ser da que Christie continua agressivo e inflexível sobre sua decisão.

O governador defende que 50% da verba que o estado arrecadará com as apostas esportivas será destinada às clínicas e programas que cuidam de viciados nestas fezinhas. A outra parte vai para os cofres públicos, entrando como impostos e sendo revertidos (teoricamente) em benefícios para a população.

Dos estados onde as apostas esportivas são legais, um caso interessante pode ser visto em Delaware. No começo deste semestre o governador democrata (esquerda/liberal) Jack Markell assinou uma expansão da lei de apostas permitindo que outros lugares, fora os cassinos, realizem seus jogos. O jogo criado está dentro do padrão que a lei federal obriga, chamada de parlay card, modalidade que o apostador precisa escolher mais que três jogos da NFL e acertar todos para ganhar. Quem entrou firme nesta foram os restaurantes e bares, com resultado impressionante em um curto período de tempo.

Com esta extensão dos parlay cards, o departamento de loterias de Delaware registrou, apenas após as duas primeiras semanas da atual temporada da NFL, um aumento de 52% nas vendas – total de US$ 2.4 milhões. E metade destas vendas foi feita nos restaurantes/bares. Para o ano fiscal 2012-13 é esperado que o estado arrecade US$ 7.75 milhões a mais graças a este novo jogo.

Delaware é uma rara exceção e os pontos de apostas – tanto cassinos quanto restaurantes/bares – estão localizados em lugares estratégicos. Como o estado fica geograficamente numa região privilegiada (nordeste dos EUA), estes pontos estão no norte do estado, fronteira com estado da Pensilvânia (tem a cidade de Filadélfia por perto) e New Jersey; e no lado sudoeste, fronteira com o estado de Maryland (próximo das cidades de Baltimore e Washington).

Se a NFL processou Delaware? Advinha... Foram dois processos e a liga perdeu ambos... E justamente a lei federal que protege Delaware é usada pela NFL para bloquear New Jersey e seu desejo de ter legalizadas as apostas esportivas. A derrota da liga no processo em trânsito contra New Jersey pode acarretar uma jurisprudência perigosa para os interesses do escudo, pois outros estados pegarão carona para lucrar com as apostas que existem, porém no submundo.

Submundo que circunda a NFL “desde sempre”. Desde o tempo que os jornais (também os sites, na era moderna) publicam os chamados point spreads dos jogos da NFL – que é a vantagem estipulada que um time vence ou perde do outro. Exemplo: para o jogo entre Baltimore Ravens x Dallas Cowboys de domingo (14), o point spread é 3.5 a favor dos Ravens; você perde se apostar acima disto e os Ravens vencer por 3 pontos. A liga também lutou para impedir que sejam publicados os point spreads, pois acredita que isto afeta o curso natural do jogo, que segundo a liga pode ser agravado se as apostas forem legalizadas, com jogadores deixando de marcar um touchdown para cobrir o point spread.



Contudo isto acontece com tanta neutralidade e faz parte do jogo independente de outros interesses. No campeonato passado, no jogo entre Dallas Cowboys versus San Francisco 49ers, na prorrogação, o receiver dos Cowboys, Jesse Holley, caminha rumo a glória para marcar o touchdown da vitória. Mas cometeu um deslize antes de chegar na end zone e o defensor o pegou na jarda número 1, encerrando uma jogada de 77 jardas [vídeo acima]. Se tivesse marcado o TD, os Cowboys venceriam por 7 pontos. Ao invés disto, venceram por 3. O point spread era 3.5 a favor dos Cowboys e quem apostou acima disto perdeu.

Será que a NFL não quer mesmo as apostas por medo de manchar o jogo? Ou é por que não vai ganhar uma parcelinha da mega bolada?

Logo a culpa é do governo, pra variar.


(GL)
Escrito por João da Paz

Juízes da NFL e a tempestade em copo d’água


A Semana 4 da temporada 2012-13 da NFL começou na última quinta (27) com a volta dos juízes oficiais, que estavam em greve por não acertar planos salariais e de carreira com a liga. As três primeiras rodadas foram comandadas por árbitros sem experiência no football profissional, chamados como medida de emergência. Erros e comportamentos cômicos marcaram a curta passagem dos “juízes reservas” e estas atitudes levaram que o público consumidor da NFL entrasse numa onda insensata de comentários raivosos, esdrúxulos e fora de propósito.

Tudo começou após a vitória legítima do Seattle Seahawks sobre o Green Bay Packers no Monday Night do dia 24. O lance que iniciou a revolta foi a marcação do touchdown a favor dos Seahawks no lance final da partida. Numa bola dividida entre o safety dos Packers M.D. Jennings e o receiver Golden Tate, os juízes seguiram o que a regra indica e deram a vantagem para o ataque. Mas a jogada teve duas situações anteriores que invalidariam o resultado final: interferência no passe de Tate e a interceptação de Jennings. Quem manda na partida são os homens do apito e eles não viram/marcaram; e o que foi decidido foi decidido. O árbitro chefe, Wayne Elliot, em entrevista para a FOX de Austin (Texas), defendeu a marcação correta que fez em campo: "Os caras do replay simplesmente disseram que nada do que viam era suficiente para reverter o que foi assinalado".

Jogo algum tem interferência de arbitragem no placar, quem joga sabe disto. Os erros dos juízes, em maior ou menor grau, vão acontecer sempre. Time que depende de árbitro para vencer não merece ganhar. É preciso fazer em campo por onde para que determinado time não se coloque numa situação dessas. Exemplo: se os Packers tivessem protegido mais o QB Aaron Rodgers e não ter permitido tantos sacks (8), o ataque renderia mais. Rodgers é inteligente e comentou sobre estes detalhes do jogo:

Eles [juízes] obviamente não mostraram seu melhor trabalho na jogada decisiva, mas há muita culpa para ser colocada nos ombros de pessoas como eu que não fizeram seu melhor jogo naquela noite”.

A maioria dos atletas americanos age de forma diferente da que vemos rotineiramente entre os futebolistas brasileiros ao comentar sobre arbitragem. Em nossa terra há o costume de criar do nada um grande big bang de fúria por um erro do “homem de preto/amarelo/laranja” ao invés de olhar os erros cometidos pelo time e/ou jogadores, pois estes são os únicos possíveis a se ter controle. Na mesma rodada de número 3 outra marcação polêmica aconteceu no jogo entre New England Patriots e Baltimore Ravens e o atleta envolvido deu uma aula de comportamento pós-jogo.

No lance chave do duelo, o cornerback dos Patriots, Devin McCourty, foi penalizado com uma interferência no passe em cima do receiver Jacoby Jones. A falta levou os Ravens para anotar o field goal da vitória. Ao ser questionado sobre a jogada, McCourty explicou: “Se uma toalha amarela é arremessada em campo [que indica falta] não há como controlar o que vai ser marcado, por isso não devo me preocupar com isto. É simples: preciso me concentrar e fazer uma melhor execução para não cometer penalidades”.

E outra, como bem disse o linebacker do Chicago Bears, Brian Urlacher: “Se os juízes são ruins, os erros acontecessem para ambos os lados. Quem reclama é sempre o lado perdedor”.

O motim virtual que aconteceu nesta semana tem todas as características de um tumulto real, a começar pelo estopim dado por alguém que encabeça outros tantos atos desconexos. Basta um jogador dos Packers soltar um palavrão no Twitter, um jornalista referendar as críticas e textos surgirem na rede online que até o presidente dos EUA, Barack Obama, e seus rivais na eleição deste ano, Mitt Romney e Paul Ryan, tiveram que dar pitacos sobre o assunto.

Como nas rebeliões, as ações foram sem pensar, sem usar o mínimo de raciocínio. Todos fizeram severas observações sobre os juízes substitutos, parte destas tão firmes quanto um prego na areia. De uma hora pra outra virou cult falar mal das zebras.

Rotularam o legítimo touchdown de Tate como vergonha, absurdo. Tá, mas precisa entrar na listinha das gafes cometidas por árbitros que a história da NFL registra. São tantas que é preciso um especial para catalogá-las e o Danilo do Diário NFL fez este favor, com uma pequena amostra dos “abomináveis” equívocos.

Restringindo a um tempo mais próximo ao nosso, há dois exemplos claros de como os “perfeitos e imaculados” juízes bancaram “exemplos de lisura”.

Em 1999, uma zebra de nome Jeff Triplett jogou a toalha amarela para dizer que tinha visto uma falta. Porém a simpática toalha atingiu o olho (sim, o olho) do lineman do Cleveland Browns, Orlando Brown. O jogador perdeu parte da visão, não rendeu mais como anteriormente dentro de campo e processou a NFL por danos. Olha que também na Semana 3 da atual temporada um lance curioso aconteceu e causou um reboliço tremendo: um juiz jogou seu chapéu na end zone do Dallas Cowboys e o receiver do time, Kevin Ogletree, escorregou no boné e foi impedido de fazer a recepção para touchdown...

Polêmica na end zone? Em 2010 Calvin Johnson, jogador do Detroit Lions, fez a recepção da vitória fora de casa contra o Chicago Bears. O juiz em campo deu o touchdown, mas foi revertido. Veja e note qual foi o erro:



Na partida que deu início a Semana 4 – Baltimore Ravens x Cleveland Browns – os juízes titulares receberam uma salva de palmas. Dois quartos de jogo depois receberam o que estão acostumados a ouvir: vaias.

Tudo volta ao normal.

A espera do próximo "imperdoável" erro de arbitragem para colocar a culpa... em quem?


(GL)
Escrito por João da Paz

Desconstruindo Cam Newton


O quarterback do Carolina Panthers tem uma legião de apreciadores. Seu jogo é atraente, tem eficiência só no mundo da fantasia e em seus torneios. Na última quinta-feira, contra o atual campeão da NFL, New York Giants, Cam Newton fez sua pior partidas na liga e mostrou quem realmente é: um QB com potencial para empolgar, longe de convencer entre os grandes atletas da posição.

Dizer que ele conseguiu marcar um touchdown na corrida acrescenta o quê? Aquela pessoa iniciante no futebol americano aprende primeiramente que cada um dos 11 jogadores de ataque exercem determinada função. A do quarterback é ser responsável por armar as jogadas: passar a bola através do jogo aéreo e, se optar pela corrida, entrega a bola para um especialista (running back).

...entrega a bola para um especialista”.

Na temporada passada, mesmo não merecendo, Newton levou o troféu de melhor novato do ano, escorado no recorde que quebrou de touchdowns marcados através da corrida: 14. Mesmo em seu primeiro campeonato, entrou para a história com estes 14 TD’s que anotou correndo com a bola. Um número insignificante para um QB. Ou você conhece Steve Grogan?

Newton conseguiu outros números tão expressivos pelo tamanho que cegaram analistas a ponto de dizer que o ano de 2011 do QB dos Panthers foi o melhor da história em toda a NFL para um novato. Somando as duas primeiras partidas, ele registrou 854 jardas áreas, até então recorde absoluto, mas quebrado pelo QB do New England Patriots, Tom Brady, na mesma segunda rodada. Terminou a temporada com 4.051 jardas aéreas, recorde histórico entre calouros.

Quantas vitórias? 5!

Difícil afirmar que Newton foi o melhor novato de 2011 se nem foi o melhor jogador da posição...

O quarterback do Cincinnati Bengals, Andy Dalton, levou seu time aos playoffs, vencendo 9 jogos, 5 destes fora de Cincy. É um jogador com mais qualidade e inteligência.

Logo, dizer que Newton teve a melhor temporada de um QB novato da história da liga é supervalorização rasa. Nem precisa viajar muito no tempo para enterrar esta falácia, basta ficar na atual década.

Em 2004 Ben Roethlisberger estreou no Pittsburgh Steelers. Com desempenhos espetaculares de aproveitamento de passe e média de jardas áreas por jogo, Big Ben, como é conhecido, liderou o time dourado e preto para ganhar 13 jogos (!), todos em sequência.

Um excelente atleta, com um porte físico avantajado, Newton usa habilidade na corrida para obter vantagem. Estratégia que deve ser pontual na NFL, utilizada meticulosamente. Se for algo tratado como prioridade, a carreira do QB será medíocre – se não for encerrada precocemente. Para ser diferente disto, Newton terá de ser a exceção e não a regra.

De 1978 até 2011, seis quarterbacks anotaram 8 ou mais touchdowns numa única temporada: Kordell Stewart, Daunte Culpepper, Steve McNair, Michael Vick e Vince Evans. Destes, quem sobressaiu foi McNair, MVP da NFL em 2003, temporada que teve a melhor média da carreira em jardas através do passe (8,0 por jogo), correu apenas 38 vezes com a bola – em 2002 correu 82 vezes – e das temporadas que foi titular em mais que 10 jogos (9 de 13) registrou nessa o maior número de TD’s (24) e menor de interceptações (7). Ou seja: deixou de ser um RB responsável por lançar a bola e se concentrou apenas em sua função.

Será que Cam Newton consegue ser um QB puro?

Não que ele precise mudar apenas por luxo. Mas caso queira ser relevante na liga, colecionar vitórias e ter durabilidade, não dá para manter a atual forma de jogar.

Hoje as regras da NFL favorecem o jogo aéreo e o poder do braço de Newton com Steve Smith de alvo (um dos mais habilidosos receivers da liga) apresenta-se como oportunidade única para que o quarterback direcione seu foco no passe visando seu próprio bem. Também há outro detalhe: os Panthers têm dois exímios corredores e especialistas no ramo (Jonathan Stewart e DeAngelo Williams).

A nova mentalidade de Newton dentro de campo tem de vir junto com uma postura mais madura fora das quatro linhas. A pífia performance contra os Giants (3 INT, 0 TD e um índice de QB de 40.6, marca mais baixa da carreira) pôs em sua face um semblante desolador, triste. Cabisbaixo, recebeu uma merecida bronca de Smith, alertando Newton sobre esta atitude negativa, não condizente com quem almeja ser líder. É recorrente este comportamento dele, criando um clima ruim entre seus companheiros desde o campeonato passado.

Ron Jaworski, comentarista da ESPN e ex-quarterback (anos 70 e 80 – 17 temporadas) elaborou um ranking dos QB’s-2012 e colocou Newton na 15ª posição, bem no centro da classificação de 30 jogadores. Simboliza o atual status dele, com a possibilidade de avançar e chegar entre os QB’s da NFL que honram o cargo que exercem.

No mínimo eu colocaria Newton três lugares abaixo, sendo ultrapassado por Dalton, Alex Smith (49ers) e Sam Bradford (Rams) – sem argumentar os casos de Mark Sanchez (Jets), Josh Freeman (Buccaneers) e Carson Palmer (Raiders).

Se não escolher a mudança, Newton vai ficar aí mesmo na mediocridade. Fazendo sucesso entre os fãs, assediado pelos marketeiros, querido pelos analistas e preterido pelos treinadores. Quem tem por objetivo vitórias e conquistas não vai escolher para ser QB um jogador que não faz a função com primazia.

Porém no mundo da fantasia é diferente, seu espaço lá é garantido.


(GL)
Escrito por João da Paz
© 1 Grant Halverson / Getty Images

O que há de tão sagrado no football da Universidade de Notre Dame?


Seguindo o movimento das universidades americanas de formar maiores e melhores conferências, Notre Dame, localizada na cidade de South Bend, estado do Indiana, deixa a Big East e leva todos seus esportes para competir na ACC; menos o football (e o hockey). A equipe de futebol americano decidiu manter a independência porque é mais lucrativo em curto prazo e mantém sua tradição. Mas esta opção prejudica o recrutamento e, consequentemente, a qualidade (vitórias) do time.

Entre todas as universidades que disputam a primeira divisão da NCAAf, Notre Dame é uma das duas que são independentes (a outra é Brigham Young). Contudo a ordem da NCAA está mudando com super conferências se formando e justamente a Big East está sendo a mais prejudicada, perdendo importantes nomes, ganhando assim o status de mais fraca das seis principais. A saída de Notre Dame, logo, era questão de quando.

Em 1999, a universidade considerou deixar de ser independente para se juntar à Big Ten. Em 2012 a Big Ten repetiu o assédio, mas Notre Dame não quis romper com o sagrado. As conferências Big 12 e ACC aceitaram negociar com os Fighting Irish num compromisso parcial e Notre Dame escolheu a última por ser mais conveniente.

Comprometimento parcial nunca é bom quando se quer algo duradouro.

O que Notre Dame considerou foi a relevância que ainda lhe resta – pouco e que pode ser perdida. Hoje, o time de football se sustenta mais nas glórias do passado, podendo sim dizer que é o campeão dos campeões, embora não seja o time que agora dá bola.

Na ACC, eles poderão organizar os jogos conforme querem, desde que 5 das 12 partidas da temporada sejam agendadas com times da conferência. Nada muito diferente do que acontece neste ano: Miami, Boston College e Wake Forest estão na tabela – sem contar Pittsburgh, outra universidade que saiu da Big East. Desta forma, Notre Dame pode manter históricos confrontos que ajudaram a equipe de football ganhar valor em todo o EUA e receber notoriedade nacional.

Jogos contra Michigan State, Michigan, Texas e USC provavelmente irão continuar na rotina, rivalidades que datam do século XIX (!) – primeiro jogo de football dos Irish foi contra Michigan em 1887. Outros confrontos de praxe contra Navy (Marinha) e contra Stanford também devem continuar.

O contrato exclusivo com a emissora NBC (TV aberta) permanece – se houvesse afiliação completa com outra conferência, teria de adaptar aos contratos vigentes com a respectiva emissora detentora dos direitos. Todos os jogos em South Bend são transmitidos pela rede NBC nacionalmente, única equipe esportiva de toda a América que tem esse tratamento.

Ser independente dá ao time outro mimo: se ficar em oitavo ou melhor posição no ranking BCS ao final do campeonato, tem qualificação automática para os um dos 4 principais Bowls. Só membros das tais 6 grandes conferências que tem a possibilidade de ir automaticamente para um dos Bowls.

Esses dois argumentos citados são usados para atrair recrutas vindo do ensino médio (high school). Só que os adolescentes preferem ir para uma universidade que não apenas tem uma bela história de triunfos, mas que tenha condições de vencer agora – de preferências jogando constantemente contra equipes fortes e semana após semana aparecendo na TV. Fora que tem a rigidez ao exigir aplicação do atleta nos estudos, fator que afasta muitos jovens da universidade católica.

O currículo de Notre Dame é legal e tudo mais, mas a última vez que terminaram em primeiro lugar no ranking foi em 1988, ano da conquista do mais recente título nacional. Desde então, a melhor colocação foi um segundo lugar em 1993. Faz quatro anos que não terminam entre os 25 rankeados...

Inegável é a influência que os Irish têm, que os levaram a um nível de sagrado, de imaculado, de ter no campus e perto do estádio um touchdown Jesus, de ser aqueles que não se misturam e não seguem a tendência; o que está mudando, é verdade. Apesar do meio caminho andado, o que tem de ser levado em consideração é que pelo menos estão no caminho.

Resta colocar um telão de LED no estádio... (blasfemy!!!)

Veja uma pequena lista dos feitos do football de Notre Dame, que atualmente não está em evidência exatamente por não vencer/convencer, mas têm todas estas conquistas:

- Ao final da temporada 2011, Notre Dame soma 104 temporadas com mais vitórias que derrotas em 123 anos de atividade no football – 6 temporadas terminaram empatadas.

- Ao final da temporada de 2011, Notre Dame teve 185 atletas nomeados para a seleção final do campeonato (All-American) em toda história, mais que qualquer outra universidade.

- Notre Dame tem 48 jogadores e treinadores no College Football Hall of Fame, mais que qualquer outra universidade.

- Dos atletas formados em Notre Dame que entraram na NFL, 10 estão no Pro Football Hall of Fame, ficando atrás apenas da USC, com 11, entre as universidade com mais alunos no salão do football profissional.

- Notre Dame é a segunda universidade em toda história da NFL a ter mais jogadores escolhidos no draft (até 2011): 469. A primeira neste ranking também é a USC: 472.

- De 1900 pra cá, Notre Dame é a segunda que tem mais títulos nacionais de football na NCAA: 13; empatada com Michigan e atrás de Alabama (14).


(GL)
Escrito por João da Paz

Uma vez Time da América, sempre Time da América


Começa na próxima quarta (5) a temporada 2012-13 da NFL com o jogo entre o atual campeão do Super Bowl, New York Giants, contra o Time da América, Dallas Cowboys. Por mais que digam o contrário não adianta: o rótulo criado em 1978 ainda é apropriado para definir o clube mais famoso dos Estados Unidos.

Os novos torcedores brasileiros da NFL, que tem a oportunidade de acompanhar esse jogo (e todo o campeonato) através do canal aberto Esporte Interativo, precisam saber qual franquia da liga é de maior destaque – a estrela no capacete é a dica. Mesmo que recentemente em campo o time não produziu resultados expressivos, fora do gridiron o sucesso permanece.

Não foi de forma tão pretensiosa assim que surgiu a tag America's Team ao falar do Dallas Cowboys. O termo foi veiculado pela primeira vez em no tradicional anuário produzido pela NFL Films, que contava a história da temporada de 1978 dos Cowboys. O nome do documentário foi Time da América, justificado pelo locutor que narrou:

Eles aparecem na televisão com tanta frequência que suas faces [dos jogadores] são tão familiares quanto às dos presidentes e estrelas do cinema”.

Em 1979 na estreia dos Cowboys contra o Saint Louis Cardinals, o narrador da CBS (emissora de sinal aberto dos EUA) apresentou o time de Dallas, visitante, como o Time da América. Reforçando o rótulo e ajudando a propagá-lo.

Nesta época os Cowboys eram competitivos. Em 1972 venceram o Super Bowl VI; em 1975 perderam o Super Bowl X para o Pittsburgh Steelers; em 1977 venceram o Super Bowl XII; e em 1978 perderam o Super Bowl XIII também para os Steelers.

Era o início do primeiro auge.

Com um elenco de estrelas, somado a um treinador inovador, Tom Landry, Dallas era um produto perfeito para as emissoras de TV e a audiência que gerava, acima de outros times, fez o time do estado do Texas ter seus jogos constantemente televisionados para todo o país.

Por ser uma equipe vencedora, naturalmente angariou fãs numa crescente assustadora.

Quem colaborou para o fortalecimento da marca Cowboys foi o presidente/diretor de football (GM) da franquia: Tex Schramm (foto abaixo).


Tex assumiu o clube em 1960 e saiu do cargo em 1989. Se a NFL desfruta do atual momento glorioso, deve ao trabalho que Tex fez, inovando a liga e sendo mentor de ideias revolucionárias para o esporte, ajudando a atingir um nível de excelência master. Elementar, afinal para os Cowboys explodirem em popularidade era necessário que a NFL seguisse no mesmo ritmo.

Algumas das inovações de Tex:

- Junção da antiga NFL com a AFL (America Football League), formando a NFL no molde atual; criando de tabela o Super Bowl. Tex foi quem iniciou as conversações de parceria com o fundador da AFL, Lamar Hunt.

- Replay instantâneo e microfones para os árbitros.

- Cores diferenciadas nas jardas de número 50 e 20 (em cada lado do campo).

- Uso de computadores no scout (análise) de jogadores e mudança na avaliação dos novatos (que levou a criação do Combine).

- Colocar o goal post (popular “Y”) atrás da end zone; e instalar bandeiras em cima das traves para que o kicker possa ver qual a direção do vento.

- Marcação oficial do tempo no placar eletrônico.

E, claro, as Dallas Cowboys Cheerleaders (DCC).

A década de 80 não trouxe êxito para a franquia, ficando fora dos playoffs em quatro temporadas sob o comando da dupla Tex Schramm e Tom Landry. Em Fevereiro de 1989 o empresário Jerry Jones compra os Cowboys por 140 milhões de dólares, demite o treinador e força a saída do diretor de football/presidente. Jones assume o controle na presidência e na diretoria de football, iniciando outra era de auge.

Em 1991 volta aos playoffs e nas duas temporadas seguintes conquista o bicampeonato do Super Bowl (XXVII e XXVIII). Ganha mais um Super Bowl em 1995 (XXX) e a popularidade do time explode, atingindo uma posição estratosférica, justamente quando a NFL estava expandindo seu alcance para outros países, incluindo o Brasil. As transmissões da TV Bandeirantes na década de 90 ajudam os Cowboys a criar raízes por aqui.

Pesquisas sem valor científico apontam os Cowboys como o time da NFL com mais torcida no Brasil. Pesquisas similares apontam que nos EUA o time de Dallas tem a maior base de fãs. Há os que discordem do rótulo Time da América atrelado aos Cowboys, usando argumentos fora destas pesquisas para tanto.

Quem começou com esta contestação foi o Atlanta Braves (MLB) em 1982. Na própria MLB há o New York Yankees, este sim com uma razão mais consistente para clamar pelo posto.

Na NFL existem dois clubes com uma força local única, com ambos tendo uma torcida que acompanha a equipe fora de casa: Green Bay Packers e Pittsburgh Steelers. Embora nada se compara aos Cowboys, que além de ter torcedores de Dallas visitando outras cidades para assistir os jogos da equipe, tem os fãs que naturalmente são de outras localidades.

Na época do segundo auge o Dallas Cowboys registrou a marca de 160 jogos consecutivos com lotação máxima fora e dentro de casa, recorde na história da NFL, alcançado entre 23 de Dezembro de 1990 e 24 de dezembro de 1999.

O apoio da torcida se reflete nos estádios e na telinha, desde aquela declaração do narrador da CBS em 1979. Trinta anos depois, a Nielsen Company (empresa americana de pesquisas, agora com operações no Brasil) fez um estudo para mensurar o impacto das franquias da NFL na TV e na internet, analisando a audiência nas emissoras locais e nacionais, menções do nome na rede mundial de computadores e número de visitantes nos sites oficiais. Veja como ficou o Dallas Cowboys nos respectivos rankings, sendo o primeiro colocado na soma geral:

* Audiência em emissora local: 8º (New Orleans Saints – 1º)
* Audiência em emissora nacional: 1º
* Visitas ao site oficial: 1º
* Menções online: 2º (New York Giants – 1º)


Jerry Jones (foto acima), por mais que tenha conseguido apenas uma vitória em playoffs nas últimas 15 temporadas, sabe administrar essa popularidade. A revista Forbes publicou em Julho deste ano a lista dos clubes esportivos mais valiosos do mundo e os Cowboys ficaram empatados em terceiro lugar com o New York Yankees (US$ 1.85 bi); Real Madrid (futebol – Espanha – em segundo com US$ 1.88 bi) e Manchester United (futebol – Inglaterra – em primeiro com US$ 2.23 bi). O carro chefe dos Cowboys nesta história é o estupendo novo estádio, com capacidade para 110 mil pessoas, que já foi sede de Jogo das Estrelas da NBA, luta do boxeador Manny Pacquiao, jogo da Seleção brasileira de futebol, Super Bowl e outros eventos diversos – recebe o Final Four da NCAA em 2014. Jones ainda não conseguiu vender o naming rights do estádio (quer US$ 15 milhões/ano) por não achar uma marca capaz de pagar a quantia, porém o estádio gera uma renda anual de US$ 100 milhões somente de cadeiras cativas de luxo e US$ 60 milhões anuais de patrocinadores do calibre de AT&T (telecomunicações), Bank of America (finanças), Ford Motor (automotivo) e PepsiCo. (alimentício).

O Time da América continua na moda, o que faz atrair tantas doletas. No começo da temporada tem um jogo nacional e em horário nobre, tendência mantida ao longo da competição, reforçando ainda mais a célebre tag. Dos 15 jogos restantes do Dallas Cowboys, 7 serão transmitidos nacionalmente, 2 destes em horário nobre. Isto sem contar o jogo do Monday Night (segunda à noite) contra o Chicago Bears no dia 1º de Outubro.

O trono reservado para o Time da América está ocupado e dificilmente estará vago. A não ser que inventem um sketch de mau gosto tentando desmerecer quem está no comando.


(GL)
Escrito por João da Paz


© 1 Rob Carr / Getty Images

O desserviço da Revista ESPN

Na atual edição de Agosto, a Revista ESPN traz uma matéria sobre a NFL, liga que começa a temporada 2012-13 no próximo mês. Assinada pelo jornalista Paulo Mancha, a reportagem tem o título de “Futuro Mal-Assombrado” e, conforme está na chamada da capa que traz o Felipão, técnico do Palmeiras, tem como destaque:

“NFL: tragédias põem em risco o esporte mais popular dos EUA”.

Há diversos erros em todo este material, sendo o menor deles creditados ao autor do texto, que apenas expôs sua opinião do que achou mais importante sobre a liga de futebol americano no mês de julho deste ano, quando um dos editores da revista, Rodrigo Borges, pediu um texto daquilo que estava em evidência.

O jornalista, freelancer, escreveu o que achava relevante, um texto válido se fosse posto como uma coluna ou artigo opinativo, e não como chamada em capa – sem contar as veiculações na TV ESPN Brasil e Internacional, reverberando as ditas "tragédias e escândalos que abalam a NFL".

Tudo isto passa uma imagem da liga extremamente longe da realidade, entregando ao desavisado uma dúvida fútil. “Será que a NFL está realmente correndo perigo?”. Mesmo a revista tendo uma irrisória tiragem e circulação, é preocupante esta abordagem pela sigla que estampa a capa: ESPN, um nome que tem credibilidade.

A matéria “Futuro Mal-Assombrado” ganhou este título da revista, pois o Mancha enviou seu texto com o título “Sucesso e Perigo”. Com este último título, a matéria teria mais razão, já que o jornalista descreve que a NFL passa por um bom momento. O “perigo” é ressaltado nos processos que a liga sofre de ex-jogadores acerca das concussões, no suicídio de um jogador de renome, Júnior Seau, e no caso bounty envolvendo o New Orleans Saints, que consistia em recompensa financeira que jogadores do time recebiam por lesionar adversários.

Sim, todos os tópicos são de apreço, porém nada que mereça valor de ser destaque e ecoado da forma que é vista.

No Grandes Ligas, o assunto concussões (lesões cerebrais) sempre esteve em pauta. No mais recente artigo sobre o tema, “O inferno são os outros e a culpa não é minha – Maio 2012”, é discutida a farra que está sendo estes processos contra a liga, envolvendo inclusive punters, kickers... Lá tem um dado notório que mostra o exagero que esta questão ganhou:

Para exemplificar, note a repercussão que um estudo científico divulgado ontem (dia 09/05) gerou. O NIOSH (Instituto Ocupacional de Segurança e Saúde Nacional) é uma agência federal americana, pertencente ao Departamento de Saúde e Serviços Humanos do Gabinete de Governo dos Estados Unidos, e tem como campo de atuação o levantamento de pesquisas sobre prevenção de doenças e acidentes de trabalho. Fizeram um acompanhamento com 3.439 jogadores aposentados da NFL e descobriram que a taxa de morte neste grupo foi menor do que a dos homens americanos. Proporcionalmente, para ficar dentro da média, se esperava que deste número, 625 jogadores falecessem, enquanto o número de mortos foi de 334.

O “sucesso” da NFL é infinitamente maior que o “perigo”, e o comissário (chefe) da liga, Roger Goodell, estabeleceu medidas drásticas para diminuir o contato dentro de campo com o objetivo de diminuir as tais concussões. Está sendo tão rígido que alguns envolvidos com o esporte dizem que o jogo está ficando muito leve, cheio de não me toque.

O “sucesso” da NFL é infinitamente maior que o “perigo”, visto os últimos contratos com emissoras de TV que a liga assinou:

#Entre 2014 e 2022 (valores anuais)
- NBC: US$ 950 milhões
- CBS: US$ 1 bilhão
- FOX: US$ 1.1 bilhão

#Entre 2014 e 2021 (valor anual)
- ESPN: 1.9 bilhão

Uma propaganda no jogo de domingo à noite nos Estados Unidos (Sunday Night/NBC) custa 400 mil dólares; na segunda à noite (Monday Night/ESPN) um reclame vale 300 mil dólares.

Segundo The Wall Street Journal, a Nike (fabricante de material esportivo) firmou um contrato com a NFL para os próximos cinco anos valendo US$ 1.1 bilhão pelo período.

Se “tragédias põem em risco o esporte mais popular dos EUA”, por que tanto investimento na NFL a médio e longo prazo? Quem iria se associar com uma marca em risco, injetando milhões e bilhões de dólares?

A NFL goza de um sucesso ímpar. Na Fall Season 2011 das emissoras americanas, 18 dos 20 programas mais assistidos foram jogos da liga. E Mancha disse isto ao responder (via e-mail) as perguntas que lhe fiz, afirmando que “... o texto [Futuro Mal-Assombrado] diz que a NFL passa por um momento de esplendor, como a liga mais rica e popular dos Estados Unidos”.

Então por que a ênfase no “perigo” ao invés do “sucesso”?

Entrei em contato com a revista ESPN para ouvir a opinião deles sobre a matéria. O editor Rodrigo Borges está de férias. Não obtive retorno do Gian Oddi, editor-chefe. As respostas que consegui foram com o diretor de redação da revista, Caio Maia.

Porém, a pessoa mais importante da revista, supostamente a que deveria demonstrar um bom exemplo como líder, respondeu com indelicadeza as questões.

Por exemplo, fiz a mesma pergunta para o Paulo Mancha e Caio Maia: Quem teve a ideia da pauta? Mancha respondeu cordialmente e de forma correta: “A revista entrou em contato comigo e pediu uma matéria sobre NFL”.

Esta foi a resposta do Caio Maia para a mesma pergunta “Quem teve a ideia da pauta foi o Capitão América, em conversa com o Carmelo Anthony. O Mancha é da Disney, a gente só se relaciona com a Marvel”.

Chega a ser engraçado, mas a ironia desnecessária mostra o tom de desrespeito.

Perguntei para o diretor da redação: “Por que o título [da matéria] foi mudado?”. Ele respondeu: “O título foi mudado para te sacanear. Toda edição tem uma reunião para saber como sacanear pessoas como você”.

Este comportamento não compete a alguém que exerce um cargo tão importante numa revista. A ESPN, tanto a americana como a brasileira, precisa ter cuidado com sua marca, para não ficar manchada desta maneira.

Ao lado do final da reportagem tem uma publicidade de página inteira do site Extra Time, que se acha “o melhor site em português de esportes americanos” - a imagem da propaganda é uma bola de futebol americano. Quem conhece a mídia, seja profissional ou o grande público, sabe que este status é mentira. Na parte esquerda da página, no canto superior, tem uma sigla que desvenda o porquê desta propaganda: F451.

F451 é uma editora que assumiu a publicação da revista ESPN em janeiro de 2012. A F451 também responde pelos sites Trivela (futebol), Tazio (automobilismo) e... Extra Time (esportes americanos).

Caio Maia faz parte da Globalway, uma empresa de investimentos. A Globalway comprou a Spicy Media, rebatizada de F451 Mídia. Servindo como diretor de conteúdo da F451? Caio Maia.

Hum!

Problema. Se fosse uma promo de plataforma da ESPN, tudo bem. Mas, se aproveitando da matéria da NFL, é veiculada uma propaganda de um site ligado ao grupo do diretor de redação da revista ESPN.

A emissora deveria ficar mais atenta a isto. Seria melhor sair deste projeto e abrir espaço para que a publicação passe a ser chamada de Revista F451; sendo assim muito mais apropriado.

Não se relacionaria com decisões errôneas, com comportamento indigno de uma pessoa que exerce um cargo importante e não se envolveria com hipóteses de matérias equivocadas.


(GL)
Escrito por João da Paz


© 1 Reprodução Revista ESPN