Operação Michael Vick

Tony Dungy, Joel Segal, Billy Martin e Andy Reid - da esq. para dir. em sentido anti-horário


Dia 24 de Agosto de 2007. Data que Roger Goodell, comissário da NFL, suspende indefinidamente o então jogador mais bem pago de toda a história da liga, sem direito a receber nenhum centavo. Esta foi mais uma punição para Michael Vick entre tantas outras. Três dias depois, Vick confessa o crime de organizar rinhas de pit-bull, antes da corte federal americana ou do estado onde mora (Virginia) lhe dar uma condenação.

Prestes a retornar à NFL em um jogo oficial, Vick ainda tem obrigações com a justiça. Ele já cumpriu os 23 meses na prisão (dois deles em casa) e agora estar em liberdade condicional por três anos, tanto a nível federal quanto estadual; qualquer erro, qualquer falha o levará de volta à prisão. Ele está ciente deste fato e precisa permanecer comportado para permanecer livre.

Goodell também alertou que ele precisa permanecer comportado para jogar na NFL.

Antes do comissário autorizar o retorno do jogador para os campos da liga em 27 de Julho deste ano, Goodell escreveu uma carta para Vick dizendo, entre outras coisas, que “... sua margem de erro é muito limitada...” Para que Michael pudesse voltar a jogar e recebesse outra oportunidade de Goodell, muita coisa nos bastidores aconteceram.

Joel Segal, empresário do jogador, foi o primeiro que se dispôs a ajudar Vick. Segal não o abandonou, pelo contrário, ia visitá-lo constantemente na prisão localizada na cidade de Leavenworth, estado do Kansas (EUA). Sempre que encontrava Vick, no pátio da prisão igual a um visitante comum, Segal dizia “... mantenha-se em forma, olhe para frente...” Motivação necessária para Michael manter-se ocupado no presente durante todos os meses confinado, pensando que algo bom aconteceria no futuro e tentando esquecer o passado.

Mais do que visitas motivacionais, Segal trabalhava muito para minimizar as punições que Vick recebeu (justiça) e tentar melhorar sua imagem perante o povo (social). O empresário então precisou chamar um advogado e uma personalidade do esporte para ajudá-lo nestas tarefas.

A aposta foi alta no lado justiça da história. Billy Martin (foto abaixo) aceitou ingressar no “time”, ele que é um famoso advogado de defesa criminal com especialização em crimes do colarinho branco, mas que cuida também de casos envolvendo gente do esporte (o ex-jogador da NBA Jayson Williams, por exemplo). Quando Martin entrou no caso ele logo aconselhou Vick a assumir a culpa, encarar as responsabilidades de uma pessoa pública e se preparar para corrigir os erros. Até que a estratégia deu certo, pois a punição não foi tão severa quanto poderia ser, apesar da condicional ser bastante rígida.


Com a situação perante a lei resolvida, a questão passava a ser como controlar a fúria da população (fãs da NFL ou não) que mostrou um repúdio notório às ações praticadas por Vick. Segal chamou pro seu “time” uma mulher (Judy Smith) que trabalha especificamente em ajudar pessoas a administrar estas crises com o povo. Contudo, ela não era suficiente para diminuir toda raiva ensandecida das pessoas. Uma coincidência ajudou Segal, Martin e Judy a achar o “alguém” certo.

Nestas situações que a vida proporciona, Martin se lembrou de uma colega sua do tempo de infância que hoje é casada com um grande homem da NFL. A mulher chama-se Lauren Dungy, esposa de Tony Dungy, ex-técnico (Indianapolis Colts e Tampa Bay Buccaneers) e hoje comentarista. Encontraram a peça que faltava.

Entre Dungy e Vick só uma coisa havia em comum: a prisão. Não que Tony já tenha sido preso, mas ele sempre teve um ministério cristão no qual ele visita constantemente presídios e cadeias em todo o EUA, dando a população carcerária uma palavra de conforto e ajuda – houve um período que Tony quase abandonou a NFL para se dedicar somente a esse trabalho. As características de Tony se encaixavam perfeitamente naquilo que Vick precisava: um conselheiro. Segal chamou Dungy para se juntar ao “time” e ele prontamente aceitou.

Assim que Dungy entrou na história tudo mudou. Ao ver uma pessoa do caráter irrepreensível de Dungy junto com Vick, a população e a imprensa passou a ter outra percepção do caso pensando da seguinte maneira: “Se alguém com uma credibilidade tão forte como Dungy é a favor de Vick, lutando para que seja dada outra chance, vale considerar a hipótese de conceder outra oportunidade”.

O envolvimento de Dungy teve uma repercussão direta entre os diretores, presidentes e técnicos da NFL exatamente pelo citado acima. Vários dirigentes ligavam para Tony nem para saber como contratá-lo, pois Dungy não é o empresário, mas para saber como Vick estava, se ele realmente mudou, se tava arrependido...

As especulações eram diversas acerca dos times que Vick poderia jogar. Justamente o Philadelphia Eagles, time que acertou com o jogador, era um dos clubes menos citados sobre uma possível negociação. Foi uma brincadeira de escritório que levou Vick para Filadélfia.

Estava reunida a alta cúpula da franquia para um bate-papo informal: executivos, diretores, presidente... quando alguém soltou: “E se a gente contratar o Michael Vick?” Respostas despretensiosas surgiram (e piadas de mau gosto também), porém Joe Banner, presidente do clube, considerou e resolveu ligar para Andy Reid sobre a possibilidade. Achou uma opinião positiva de uma pessoa que luta por segundas chances.


Num sábado á noite, Banner (foto acima) liga para Segal e fala sobre Vick pela primeira vez. Foi uma conversa inicial que resultou em vários acertos. Estava encaminhada a ida de Michael para os Eagles.

Mas, afinal de contas, o que Reid falou com seu presidente que o fez contratar Vick? Dias depois todos ficaram sabendo.

Reid é um conservador elevado à décima, mas ele deixou as emoções florir na coletiva de apresentação de Michael Vick. O treinador compartilhou o drama que ele passou em 2007, justamente o mesmo ano que Vick foi preso, ao presenciar dois filhos seus (Garret e Britt) serem presos no mesmo dia, em incidentes diferentes, por graves acusações envolvendo drogas e armas. Ambos ainda estão presos, entretanto logo eles ganharão novamente a liberdade e irão enfrentar a dificuldade de conseguir a segunda chance.

Por a história do Michael e dos meus filhos terem acontecido no mesmo tempo, eu acompanhei de perto o que Vick estava passando e sei muito bem o que é estar na situação que ele se encontrava. Por isso, eu sei quais são as mudanças que precisam ser feitas.” Afirma Reid se colocando a disposição de ir além da função de treinador e se propondo a ajudar no que for necessário.

Neste Domingo quando entrar em campo no jogo dos Eagles contra o Kansas City Chiefs, Michael Vick irá agradecer a Deus por mais um jogo que irá acontecer e deve se lembrar de agradecer também por todas as pessoas que trabalharam e se dedicaram para que esse dia chegasse. Agora a bola está em suas mãos para concretizar o que ele diz frequentemente: Fazer com que as ações falem mais do que as palavras.


(GL)



© 1 Arte Gráfica por Kevin Dearth (Michael Vick)
© 2 Steve Helber / AP


PS: Leia “As Suas Glórias Vêm do Passado” texto sobre o San Francisco 49ers e Mike Singletary (publicado em 05 de Agosto)

2 comentários:

Vitor Sergio disse...

João, parabéns pelo texto. Todos têm direito a uma segunda chance. Eu nem sabia desse envolvimento do A. Reid. Valeu.

Anônimo disse...

coluna legal

continue assim

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