As Suas Glórias Vêm do Passado


E o que aconteceu sirva de exemplo.

O pensamento da diretoria dos 49ers é fazer com que esta seja a temporada da conversão, de mudança de atitude. A meta é apagar o que aconteceu nesta década e se espelhar nos áureos 20 anos de sucesso que o clube teve entre 1981-2000 (5 títulos do Super Bowl, 13 títulos de divisão e 16 participações nos playoffs). O treinador Mike Singletary (foto acima) e o presidente do clube Jed York serão os encarregados desta missão.

A favor de Singletary já existe um fato: depois das 10v-6d do campeonato de 2002, sobre o comando de Steve Mariucci, apenas Mike, no ano passado, conseguiu terminar a temporada com um retrospecto positivo: 5v e 4d – quatro das cinco vitórias aconteceram nos últimos cinco jogos da temporada.

O tom de mudança aconteceu logo no primeiro jogo que Singletary dirigiu a equipe (como interino) contra o Seattle Seahawks na semana 8. Mike tirou o tight end (TE) titular do time, Vernon Davis faltando 10 minutos para o término da partida, após o jogador agredir um safety dos Seahawks (o time foi penalizado em 15 jardas). Em entrevista coletiva depois da partida, Mike disse que Davis era “in-treinável” e que preferia jogar com 10 em campo do que contar com Davis.

O TE aprendeu a lição. Na partida seguinte, contra o Arizona Cardinals, ele marcou um incrível touchdown (TD) saltando sobre um defensor, algo que não faz parte do seu plantel de habilidades...

Este é apenas um exemplo da abordagem diferente de Singletary em comparação com Mike Nolan, treinador que ele substituiu. Nolan não era um treinador que se relacionava com os jogadores e tinha o costume de criticá-los via imprensa – Alex Smith, quarterback (QB) já foi uma das “vítimas”. O estilo “durão” de Singletary era exatamente o que o elenco precisava; alguém que exige o máximo dos atletas, mas que sabe o momento de “frear”. Características de um treinador que foi um ótimo jogador.

Para entender como era Singletary na época de jogador, basta uma frase: Linebacker do Chicago Bears nos anos 80. Pronto! Agora não é segredo do por que desta mentalidade aguerrida dele. Foi 10 vezes para o Pro-Bowl, duas vezes eleito o jogador de defesa do ano (1988 e 1985) e campeão do Super Bowl XX (20) em 1980; ele é membro do Hall da Fama.


Ao olhar os treinamentos do San Francisco desta pré-temporada é nítido ver o foco de Singletary no trabalho físico do seu grupo. Justin Smith (foto acima, camisa 94), veterano defensive end (DE) com oito temporadas de experiência na NFL, disse que pela primeira vez está fazendo diversos exercícios de tackle. São seis dias de pré-temporada e seis dias de treinos com o equipamento completo e já sete jogadores estão fazendo tratamentos diários na enfermaria do clube (nenhum com lesão grave).

Alguns atletas estão receosos enquanto este método “da velha escola” em treinar uma equipe. Porém, por ser ex-jogador e um dos mais fiscos que atuou na liga, Singletary sabe a hora de parar e recuar quando os jogadores chegarem ao nível atlético que ele almeja. Enquanto isso não acontece, eles terão que encarar um morro (literalmente) que ele pediu para que fosse construído nas dependências do clube; de vez em quando os jogadores vão lá se exercitar: o morro é feito de areia fofa e têm 4,5m de altura, seu apelido é Pain (tr. Dor).

Acreditando que o trabalho duro trará à franquia resultados positivos, a primeira ação do novo presidente dos 49ers, Jed York, foi efetivar Singletary. Decisão sábia tomada pelo responsável em administrar o clube que conviveu com algo que não é de seu costume: fracassos.

Além das derrotas dentro de campo, está década foi marcada por brigas familiar fora dele envolvendo a família DeBartolo e a família York.

Longa história resumida: Eddie DeBartolo Jr. era o dono da franquia na época áurea da equipe (1981-2000), porém teve que ceder o clube à sua irmã (Denise) depois de se envolver em um caso de corrupção com o governador do estado de Louisana. Denise, que já tinha experiência em administrar uma franquia (foi campeã com o Pittsburgh Penguins na NHL em 1991), assumiu junto com seu marido, John York, o San Francisco 49ers no início desta década.

Uma das primeiras atitudes de John foi tirar tudo o que lembrasse DeBartolo Jr. Tudo! Fotos, objetos... Os dois não se davam bem e a situação dentro do clube ficou constrangedora, pois nem o nome “DeBartolo Jr.” poderia ser mencionado. Anos passaram e a rixa permanecia em pé.

Entretanto, como sempre acontece nas relações humanas, depois de perceber que o desentendimento era por motivos infantis, o casal John/Denise (foto ao lado) resolveu por fim a esta história e irá homenagear DeBartolo Jr. como o membro número 1 do Hall da Fama dos 49ers, que será inaugurado no primeiro jogo em casa desta temporada contra o Seattle: será a primeira vez, desde 2000, que DeBartolo Jr. volta ao estádio do clube.

Talvez esta reconciliação traga de volta o “ar” vitorioso que sondava a franquia nos anos 80 e 90. “Ar” este que envolveu jogadores como Joe Montana, Steve Young, Ronnie Lott... Em mais um gesto demonstrando “que-o-passado-bom-deve-ser-lembrado-e-o-ruim-esquecido”, Jed York ordenou que os uniformes deste campeonato sejam em um tom vermelho mais claro, lembrando o tempo de vitórias sobre o comando de DeBartolo Jr...

E o que aconteceu sirva de exemplo.


© 1 Doug Benc / Getty Images
© 2 Paul Chinn / The Chronicle
© 3 San Francisco Sentinel

Um comentário:

eduardoaugusto disse...

Gosto dos seus textos! Parabéns!

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