Política e Intere$$e$


A metade da temporada da NCAA football (NCAAf) indica polêmica à vista. Pois este é o momento que o comitê BCS (Bowl Championship Series) divulga o primeiro ranking anual das melhores escolas do esporte no campeonato. Mesmo usando opiniões de pessoas e aspectos tecnológicos, o sistema de bowls está longe de ser unanimidade e tem como principais inimigos o Congresso dos EUA e o presidente do país.

Junto com a lista das universidades, que saiu na última segunda (19), veio uma representação do Senado contra o BCS, em conjunto com a Casa dos Representantes americana (espécie de Câmara Federal). Nomes fortes da política, encabeçados pelo Sen. Orrin Hatch, Rep. Neil Abercrombie e o Rep. Joe Barton, fizeram uma carta criticando o sistema BCS de forma bastante contundente.

“Por que este envolvimento?” [alguém está dizendo por aí...]

Boa pergunta.

O ponto principal e que atinge o BCS é a questão da conhecida lei antitruste, que trata sobre cartéis, concorrência livre e monopólio. Segundo os legisladores, o BCS infringe essa lei, permitindo que apenas algumas universidades concorram ao “título nacional”.

“Título nacional” está entre aspas porque, oficialmente, a NCAA não reconhece e não faz nenhum torneio para definir quem é o melhor time no football (diferente do que acontece com os outros esportes). Este sistema de bowls, criado para realizar decisões por todo o país, é antigo, mas tem sua formação mais moderna desde 1992, quando foi criada a Bowl Coalition para tentar organizar os bowls.

O BCS surgiu em 1998 e coordena os principais jogos da chamada pós-temporada. São quatro decisões – Rose Bowl, Orange Bowl, Sugar Bowl e Fiesta Bowl – e o problema todo é como determinar quais universidades tem o direito (ou privilégio) de participar. Aí entra a política.

Existem 12 conferências – total de 131 escolas – de football da Divsão-I (a principal da NCAA). Porém, apenas seis conferências – 73 escolas – têm direito (ou privilégio) de se classificar aos melhores bowls. O restante só pode mandar uma – e somente uma – universidade aos prestigiados bowls do BCS. Esta discriminação é considerada pelo legislativo americano como concentração de poder e favorecimento ilegal.

O G6, se assim podemos chamar, consiste nas conferências ACC, Big East, Big XII, Pac-10, Big Ten e SEC. Os campeões de cada uma delas estão classificados automaticamente para os bowls:


Vencedor da ACC: Orange Bowl
Vencedor da Big Ten x Vencedor da Pac-10: Rose Bowl
Vencedor da Big XII: Fiesta Bowl
Vencedor da SEC: Sugar Bowl

E quem ganha a Big East, vai para um dos bowls com vaga disponível. Através do ranking são escolhidas as outras duas escolas para completar as partidas decisivas.

Fora isso, claro, há o bowl final, que é disputado entre a universidade número 1 e número 2 do campeonato segundo o ranking do BCS.

E aí começa a confusão.

Como determinar quais são as melhores equipes?

Esta é a fórmula que o BCS usa – quem tem a melhor média, fica em primeiro:

BCSavg=(hp/2825+up/1550+(c1+c2+c3+c4)/100)/3 . Onde:

BCSavg é a média final

hp (Harris Interactive Poll) é o ranking feito pela empresa especializada em pesquisa de mercado, composta por ex-jogadores, ex-técnicos e jornalistas em atividade.

up (USA Today Poll) é o ranking publicado no jornal, feito por 61 treinadores.

c1, c2, c3 e c4 são os resultados extraídos de outros seis rankings, usando um computador, com cada escola tendo a melhor e pior posição descartada.

Fazendo todas estas contas se chega a universidade número 1, a número 2... Os defensores do sistema BCS acham coerente esta fórmula por usar elementos humanos e matemáticos. Os que fazem oposição usam o mesmo argumento para contrariar o método, pois como definir a real qualidade dos times através de um cálculo? Por que não decidir em campo através dos tradicionais e bem sucedidos playoffs? Aí entra os intere$$e$.

Estes quatro bowls, mais a decisão do "título nacional", gera milhões de dólares em direitos de transmissão e em merchandising. As universidades ficam com um pedaço do bolo, mas é o BCS que sai no lucro nesta história. Os bowls deste ano têm patrocínios de peso: FedEx, empresa de logística (Orange Bowl); Tostitos, empresa alimentícia (Fiesta Bowl); Allstate, empresa de seguros (Sugar Bowl) e Citibank, empresa financeira (Rose Bowl e o “título nacional”). Para quebrar esta poderosa corrente de dinheiro não será fácil, contudo com a ajuda de Barack Obama, presidente dos EUA, a chance de sucesso aumenta consideravelmente.


Em entrevista ao mundialmente famoso programa 60 minutes, logo após ser eleito, Obama afirmou “Eu irei me envolver nisto. Acredito que é a coisa certa” sobre a criação dos playoffs. Este aspecto, inclusive, talvez seja o único que tem total acordo entre a direita e esquerda americana que, caso o BCS não faça algo para mudar seu sistema em curtíssimo prazo, vai entrar pesado para criar uma lei e/ou estatuto modificando as regras da pós-temporada da NCAAf.

A pressão está aumentando a cada dia que passa e algumas sérias movimentações estão sendo feitas. O BCS está atrás de alguém que seja o defensor do sistema, alguém que se dedique exclusivamente para manter a imagem intacta da marca e rechaçar a opinião pública das críticas que o comitê recebe constantemente. Precisam achar um cara rápido, pois o estado de Utah já está na ativa contra o BCS.

Mark Shurtleff, procurador-geral do estado, está investigando o BCS baseado na lei antitruste (abordada aqui no inicio). O caso usado é da universidade de Utah que terminou a temporada invicta duas vezes nos últimos cinco anos, mas não decidiu o campeonato em nenhuma ocasião (Utah não faz parte do G6). O argumento usado é que, universidades como Utah, estão em desvantagens no nível financeiro e competitivo se comparado com as escolas do G6. Fato que se encaixa na lei antitruste.

Os políticos nada podem fazer para mudar o sistema BCS até 2011 – devido a contratos. Se o comitê não optar por buscar uma alternativa, ao que é visto hoje em vigor, o governo e o legislativo vão atacá-los com a meta de implementar os playoffs e deixar que o campeão se decida em campo verdadeiramente. Resta saber se os Intere$$e$ serão mais poderosos que a política.



(GL)



© 1 Imagem da rede de televisão Columbia Broadcasting System (CBS)

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Um comentário:

Carlos A. disse...

Muito complicado essa fórmula.
Por isso nunca entendi o funcionamento da NCAAf.
Torço para Notre Dame e sei que ela faz parte de uma Conferência (ou Divisão) Independente. Agora, o que ND tem que fazer para chegar em algum Bowl: não tenho a menor idéia. Muito legal este texto.
Carlos AC

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