Dossiê Rush Limbaugh e o Saint Louis Rams


No mínimo, polêmico.

Talvez esta seja a melhor forma de definir Rush Limbaugh, apresentador de um programa político de rádio extremamente popular nos EUA. Ele fazia parte do grupo que está se preparando para entrar com uma oferta na compra do Saint Louis Rams, porém saiu por sofrer um ataque massivo da opinião pública que não concorda com sua associação a NFL.

Limbaugh se coloca como vítima de toda a história. Parte da mídia concorda com ele, outra parte se posiciona contra. Quem está a seu favor é o setor da imprensa conservadora e da direita – que compartilha das mesmas idéias de Limbaugh – simbolizado no canal de notícias da TV por assinatura mais popular do país: FOX News, rede de televisão que defende abertamente Limbaugh em diversas questões, especialmente nesta. Quem está contra é o setor da imprensa liberal e da esquerda, simbolizado no canal de notícias CNN, que fez reportagens e organizou debates contra Limbaugh.

Esta polarização surge das declarações que Limbaugh fez (ou não) sobre a NFL e seus jogadores. Além disto, há (ou não) citações polêmicas do apresentador acerca de questões delicadas da sociedade, principalmente sobre os afro-americanos.

Aí é que começa o imbróglio todo.

Antes de ser um jornalista político, Limbaugh trabalhou com esportes e era uma figura muito conhecida. Fazia parte da ESPN e era um dos importantes comentaristas da NFL no início desta década. Em 2003, ele disse algo sobre o quarterback (QB) Donovan McNabb, estrela do Philadelphia Eagles, que lhe custou o emprego e desafetos:

Me desculpa pelo o que eu vou dizer, mas eu não acho ele [McNabb] tão bom assim. Acredito que existe uma preocupação social na NFL e a mídia está com desejo de ver um QB preto se dar bem na NFL.” (abaixo o vídeo, em inglês)



Ele foi demitido semanas depois.

Porém, na época, apesar de muitos atacarem Limbaugh pelo o que ele disse – e a ESPN ter feito uma retificação no dia seguinte – alguns jornalistas concordavam com a visão de Rush, mas evidentemente usariam palavras diferentes.

Em outro episódio, o próprio admite que se equivocou no tom usado para comentar sobre os jogadores da NFL que estavam se envolvendo em diversos crimes na metade desta década. Ele disse:

Deixa eu dizer desta forma: a NFL está parecendo um jogo entre os Bloods e os Crips [gangues de rua] sem armas. Pronto! Eu disse

Limbaugh, depois, reconheceu o erro e mais recentemente comentou que deveria ter usado outra analogia para expressar seu ponto de vista.

O importante de se entender é que Rush é extremamente opinativo e fala o que vem na cabeça, esta é a sua característica, sua personalidade. Muitos concordam com ele e até dizem o mesmo, só não tem um programa de rádio com uma audiência de 20 milhões de pessoas (por dia) na hora do almoço. Limbaugh fez questão de reafirmar isso quando o grupo, liderado por Dave Checketts, dono do Saint Louis Blues (NHL), se aproximou dele o convidando para se juntar na sociedade.

Limbaugh é do estado de Missouri (onde fica a cidade de Saint Louis). Em Junho deste ano, quando ele ficou sabendo que os Rams estavam à venda, deixou a entender em seu programa que gostaria de adquirir a franquia. Dias depois, em um campo de golfe, Checketts encontra Limbaugh e comenta sobre o que ele disse no rádio e Rush convida Dave para ir à sua casa conversarem. Checketts apresenta o projeto e convida Limbaugh para ser um dos sócios minoritários. Antes de concordar, Limbaugh faz questão de avisar aos parceiros da repercussão que a história teria quando chegasse ao grande público (leia-se: imprensa). Eles fizeram questão de mostrar que estavam cientes da situação, que falaram com gente importante do alto escalão da liga e que tudo daria certo.

Semana passada a história vazou e a “avalanche” predita começou. Foram posições das mais diversas e variadas, começando com os jogadores dizendo que não iriam jogar para ele, passando pelo massacre da mídia, até chegar ao comissário da liga, Roger Goodell (foto abaixo). Nesta terça (13) ele deu uma entrevista coletiva e disse: “Eu falei várias vezes que estamos em busca do alto nível por aqui. Penso que comentários polêmicos não caracterizam a NFL e eu não quero ouvir estes tipos de comentários vindos de pessoas da alta hierarquia dos clubes e/ou da liga”.


Horas depois, Checketts liga para Limbaugh pedindo para que ele saísse do grupo, pois a situação estava ficando insustentável. Rush, contudo, respondeu que não iria se demitir e que, se caso Checketts quisesse ele fora, teria que vir a público e falar. Dave fez isto na Quarta (14) dizendo: “Está claro que o envolvimento dele [Rush] no nosso grupo se tornou uma complicação e uma distração para o nosso objetivo, que é manter os Rams em Saint Louis”.

Como Limbaugh gosta de polarizar as coisas, ele disse ontem em seu programa: “...este ataque foi orquestrado pela esquerda, que não quer ver os conservadores crescerem...” Tá certo que ele não é o cara mais politicamente correto que existe, mas muito do que foi escrito não é verdade, principalmente citações creditadas a ele e que nunca foram provadas. Como ele vai se justificar de algo que não fez? Dizer que ele foi infeliz em alguns dos seus comentários é compreensível. Afirmar que ele é racista é muito complicado. Exemplo: uma atitude racista seria ele não contratar um jogador por causa da sua cor de pele, caso ele fosse dono dos Rams.

E olha que a NFL já passou por isso verdadeiramente.

A liga começou a assinar com jogadores afro-americanos em 1946 e a escolhê-los no draft a partir de 1949. George Marshall, dono do Washington Redskins na época, era abertamente racista e só colocou um afro-americano na sua equipe em 1962. Em outras ligas há casos de preconceitos e racismo tão graves quanto este mencionado, partindo de diretores.

Na MLB, a ex-dona do Cincinnati Reds, Marge Schott, dizia: “Dave [Parker] é meu ne*** que vale milhões de dólares” e não permitia que seus jogadores usassem brinco porque “...é coisa que só fruta usa...” Ela foi banida pela MLB quando demonstrou publicamente, através de declarações e atitudes, simpatia pelo partido nazista e ao seu líder Adolf Hitler, logo após ter o controle majoritário da franquia.

Na NBA, o ex-executivo do Los Angeles Clippers Elgin Baylor, entrou com um processo em Fevereiro deste ano contra o dono da franquia, Donald Sterling, por “discriminação racial trabalhista”. Nos documentos da parte acusadora constam declarações de Sterling do tipo: “vou encher meu time de pobres garotos pretos do Sul [dos EUA, região de maioria afro-americana] e um treinador branco” e “estou oferecendo muito dinheiro a este pobre menino preto” – falando da negociação acerca do jogador Danny Manning.

Se o assunto abordado para banir Limbaugh for comentários politicamente incorretos, o que dizer dos rapper Jay-Z (New Jersey Nets – NBA) e Nelly (Charlotte Bobcats – NBA) que não cantam “conselhos da mamãe” em suas músicas e mesmo assim tem parte nestas respectivas franquias?

A questão é que nem foi dada uma oportunidade a Limbaugh de participar da compra dos Rams e em grande parte isto aconteceu por pensamentos que ele nunca expôs. Por mais que ele seja uma pessoa que defende valores duvidáveis e tenha convicções esquisitas, o dinheiro que ele ganhou é limpo. Limbaugh tem o direito de participar de qualquer grupo que queira comprar qualquer franquia de qualquer liga. Se ele será aprovado, aí é outra história, porque ser dono é um privilégio.

Em todas as ligas, seja sócio majoritário ou minoritário, é feito uma triagem completa do passado do indivíduo. Mark Cuban, dono do Dallas Mavericks (NBA), diz que foram falar com pessoas que ele não via há anos; foram a lugares que ele nunca imaginaria que fossem. Limbaugh não passou por isto e teria que, ainda, ser aprovado por 24 dos 32 donos das outras franquias da NFL.


Não foi uma exclusão oficial, mas o quarto poder (imprensa) tirou Limbaugh do jogo. A mídia não formou opinião, já entregou feita aos ouvintes, telespectadores e leitores; estes que receberam uma enxurrada de notícias anti-Limbaugh e não foram verificar se o que lhe estavam informando era verídico ou não e se tinha alguma procedência.

No final das contas, a opinião de Goodell prevalece e parece ser a mais sensata. Limbaugh não é bom para a NFL e a liga não precisa dele, justamente por ser polêmico e tomar atitudes insensatas; como falar sem pensar. A NFL está cheia de gente que têm ideais da ultra-direita, porém tudo fica entre eles. Limbaugh é uma figura pública e todos iriam querer uma opinião dele sobre o assunto que surgisse e fosse pauta da imprensa, tentando sempre criar um “algo a mais” – parecido com o que fazem com Cuban na NBA.

Se ele quer continuar nesta busca, que tem desde criança, de ser um dono ou fazer parte da diretoria de um clube, pode ir atrás de uma franquia da NBA; lá deve ser mais fácil... A NFL já mostrou que a porta tá fechada e, consequentemente, abre uma jurisprudência que irá limitar muita gente de entrar no seleto grupo – isto se a mídia for fazer a mesma cobertura com potencias futuros donos. A conferir.

O problema todo foi a maneira como lidaram com o assunto. O desfecho (Rush Limbaugh fora da NFL), porém é o mais correto e o esperado.


(GL)



© 1 Bill Pugliano / Getty Images
© 2 AP
© 3 Landow / UPI

Um comentário:

diogoiafelice disse...

Joao, paraben pelo blog, te confesso que de todos os blogs que falam de esportes americanos em portugues , esse é o mais fantastico, com textos atuais e muito bem escritos.

abraço

Postar um comentário