Percepção e o Bom Excesso


Uma das principais virtudes do ser humano é reconhecer falhas, admitir erros. Isto leva a correção e melhora da pessoa tanto na vida profissional quanto na pessoal. Porém, são poucos que fazem esse tipo de reflexão, os poucos que são conhecidos por especiais, aqueles que excedem o normal e ultrapassam a linha do bom. Kobe Bryant, armador do Los Angeles Lakers, se encaixa perfeitamente nesse conceito.

Os 31 anos de Kobe enganam. Em tese ele pode ter ainda uma longa carreira na NBA – já admitiu que, se der, jogará até os 40 –, mas sua quilometragem na associação é alta com 13 temporadas no currículo. A mente está jovem e aguenta mais; o corpo está cansado e pode durar menos. Como Bryant não é daqueles que gostam de jogar apenas para competir, ele nota suas delimitações e busca aprimorar seu jogo em aéreas que irão lhe ajudar nesta determinada fase da carreira.

Ele sabe dos movimentos e jogadas que ele fazia quando era mais novo e que agora não fazem parte do seu arsenal. Ele sabe também que hoje há jogadas no seu repertório que não existiam antes. Para entender estes aspectos, um cara o ajuda nesta questão desde a pré-temporada do campeonato 2008-09 e o personal trainer é nada mais nada menos que Tim Grover. Grover trabalhou por muito tempo com Michael Jordan e hoje cuida de Bryant (e também de Dwyane Wade, armador do Miami Heat); ele acompanha o atleta, monitora e prepara, introduzindo técnicas na rotina de treinamento de Kobe que ele não tinha o costume.

A partir de então Bryant, com frequência, vai para uma banheira cheia de cubos de gelo relaxando assim os músculos do corpo; três vezes ao dia, quando ele está na ativa, Kobe coloca as pernas em um balde durante vinte minutos. Grover não trabalha a parte muscular de Kobe e sim partes específicas do corpo como tornozelo, pulso e quadril, com a meta de melhorar a agilidade e destreza do jogador em quadra. Apesar de ser contratado para cuidar especificamente do condicionamento físico, Grover auxilia Bryant na parte técnica também. Por exemplo: nas finais contra o Orlando Magic (jogo 3) quando Kobe errou 5 de 10 arremessos livres, Grover apareceu no outro dia mais cedo na quadra e colocou o jogador durante 40 minutos arremessando só lances livres. Ao falar com a revista Sports Illustraded sobre este compromisso do Bryant em sempre almejar a evolução, Grover disse: “As super estrelas não chegam a este status por acidente. Tudo acontece pelo tempo dedicado, o esforço feito e o conhecimento que vem através de ouvir outras pessoas”.

A parte de “...ouvir outras pessoas...” Kobe usou na pré-temporada deste campeonato. Em uma sessão quase secreta – que só teve um trecho filmado por uma rede de TV local da cidade de Houston – ele ficou cinco horas com o lendário pivô Hakeem Olajuwon treinando movimentos de pivô, dentro e fora do garrafão, para aumentar as jogadas e possibilidades do atleta dos Lakers em se desvencilhar da marcação e ir para a cesta. Na mais recente partida contra o New York Knicks (dia 24/11), Kobe precisou de um dos tais movimentos para sair de uma marcação dupla e o resultado final está no vídeo abaixo.



Motivos. Bryant os procura para conseguir as vitórias e ser bem sucedido em quadra. O fato de ele nunca ter usado nenhum dos quatro anéis de campeão está dentro desta filosofia pessoal de não ficar admirando e/ou exibindo as conquistas – ele terá tempo para fazer isto quando se aposentar. Assim que ele recebeu o anel pelo título da temporada passada, Kobe prontamente o pegou e colocou em um cofre junto com os outros e disse: “Agora é hora de conseguir mais um”.

Depois de mais de 42.000 minutos jogados em toda a carreira na NBA – o quarto na lista entre os atletas em atividade –, Bryant se vê em uma posição de crescimento constante. No último dia 19 (jogo contra o Chicago Bulls) ele chegou a posição de número dois na categoria “cestinhas” da história da franquia; o primeiro é Jerry West com 25.192 e logo atrás vem Bryant com 24.292 (até 30/11). Atingir o topo e terminar a carreira como o maior pontuador da franquia Lakers serve como mais uma motivação. O jornal Los Angeles Times fez uma pesquisa perguntando qual será o legado do camisa 24 quando ele se aposentar e 56% das pessoas responderam que ele será o melhor e maior jogador da história do clube.

Os adversários servem também de inspiração para ele, pois quanto mais agressivo o oponente for, melhor. Nas entrevistas coletivas após os jogos contra o Magic (finais da temporada 2008-09), Kobe dizia constantemente que estava incomodado com a marcação de Mickaël Pietrus, pois o ala do Orlando ficava nervoso e não se aproximava tanto dele. Kobe prefere mais contato na marcação, similar ao que Bruce Bowen fazia (foto abaixo), porque “... é mais legal, aí se torna um desafio a ser superado...”.


O excesso desses desafios, metas e objetivos é algo bom e produtivo, visto que estes fatores irão injetar mais qualidade no jogo de Kobe Bryant. Somando a percepção que ele tem e o seu alto QI sobre o jogo de basquete, tudo leva a crer que só coisas boas virão a acontecer no futuro. Caso não ocorra desta maneira, a consciência dele estará leve por ter tentado o sucesso de todas as maneiras e buscar ser um atleta relevante na NBA por um longo período; o que poucos – os especiais – conseguiram fazer.

Está aí mais uma motivação para Kobe, se é que ele precisa de mais...


(GL)



© 1 e 2 – Direitos Reservados

2 comentários:

Thiago disse...

Show de Bola Dapaz.

Kobe Bryant é realmente
um cara diferenciado, além
de todo o talento, essa ética de
trabalho e a sede de continuar vencendo
e melhorando são atributos de um cara
que ama realmente o jogo.

Abraços

Luiz Lara disse...

Muito bom texto, o Kobe é um exemplo para qualquer profissional de qualquer área, com certeza.

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