Cestas, Dinheiro e Graça


"Deus me abençoou”.

Esta declaração foi dada ao jornal Chicago Sun-Times pelo armador do Chicago Bulls, Derrick Rose (foto acima), depois do jogo da última sexta (22) contra o Phoenix Suns. Um agradecimento por ter marcado 32 pontos na partida.

Mas tinha algo de especial sobre ser o cestinha daquela noite. Rose estava integrando um grupo de atletas que se comprometeram em ajudar o Haiti através da fundação criada pelos ex-presidentes dos EUA Bill Clinton e George W. Bush. O compromisso era doar mil dólares para cada ponto assinalado e os 32 anotados por Derrick foi a maior marca da rodada (empatado com Dwyane Wade e Stephen Curry). Ele tem razão em agradecer aos céus porque sua média de pontos até então era de 19.1 e marcar mais de 30 pontos é algo raro em sua carreira.

Toda a temporada passada (ano de novato) ele não marcou 30 pontos ou mais (em uma partida). Contudo, a primeira vez que ele ultrapassou esta barreira foi histórica. No primeiro jogo de playoffs do campeonato 2009-10 (contra o Boston Celtics) Rose anotou 36 pontos, se juntando à lenda Kareem Abdul-Jabbar como o novato que mais marcou pontos em sua estréia na pós-temporada – Jabbar tinha 22 anos e Rose 20. O armador dos Bulls ainda foi apenas o segundo jogador, desconsiderando o tempo de experiência, a marcar mais de 35 pontos e 10 assistências em sua estréia nos playoffs.

Nesta temporada ele vem mostrando que está fazendo efeito as intermináveis horas de treinamentos de arremessos no período de férias. Já são quatro jogos com 30 pontos ou mais (incluindo a partida contra os Suns). Rose não tinha no seu repertório a característica de ser um inerente pontuador, mas agora ele possui esta habilidade que eleva seu jogo a lugares mais altos.

Durante toda a sua vida Rose foi adepto da filosofia de passar primeiro, arremessar depois; ajudar os outros. Na época da escola, garotos entravam na fila buscando uma transferência para jogar com Rose, pois a fama de ser um excelente passador corria pelas ruas de Chicago – sua cidade natal. O sucesso que ele desfrutava era esperado, afinal o que diferente podia sair de um garoto que ficava horas com uma bola de basquete nas quadras em volta do bairro (Englewood) onde morava?


Aquilo que lhe dava satisfação e prazer servia como uma forma de sobrevivência. Rose se encaixa no perfil que bem conhecemos: garotos da periferia que tem no esporte (no caso do Brasil, o futebol) uma oportunidade de viver longe do crime e das drogas, almejando uma carreira para melhorar as condições da família. Englewood é um dos bairros mais violentos de Chicago e ganhou fama mundial (em 2008) pela tragédia acontecida contra a mãe, o irmão e o sobrinho da atriz/cantora Jennifer Hudson (vencedora de Oscar e Grammy) - os três foram brutalmente assassinados pelo cunhado na casa da mãe em Englewood.

O basquete servia como um escape para Rose e sua mãe, Brenda, entendia isto. Ele ficava jogando até que ela o chamasse para casa, o que era obedecido prontamente. Não havia muita preocupação em o que poderia acontecer com seu filho nas ruas, pois havia (e ainda há) um respeito muito grande de Rose para com sua mãe e ele seguia a risca as orientações dela, assim conseguia a liberação para jogar basquete diariamente. Por ser quieto e não falar muito, Rose não se envolvia com muita gente, a não ser os amigos que jogavam com ele.

Quando o tempo de ingressar na faculdade chegou, surgiu a questão tradicional: Para onde ir? Se não existisse a regra imposta pela NBA de que um jogador só pode entrar na associação um ano depois de terminar o ensino médio, Rose iria direto para o profissional. Porém, ele precisava passar este ano de transição em atividade e a NCAA foi escolhida como ponte. Entre tantas universidades interessadas, Rose escolheu Memphis; por um motivo além do esporte.

Assim que John Calipari, então treinador dos Tigers (atual técnico de Kentucky), chegou à casa de Derrick e apresentou o programa para ele, surgiu uma conexão diferente. Brenda chamou Calipari de canto e disse “Ele vai ficar bem. Digo isto porque ele tá conversando com você e meu filho não é de conversar muito”. O elo criado entre Calipari e Derrick é forte até hoje, sempre um ligando para o outro.

Em Memphis, Rose foi fantástico e liderou os Tigers à final do torneio da NCAA (2008), perdida para a Universidade do Kansas. Porém não foi só a decisão perdida, mas a temporada inteira. Investigadores da NCAA acusaram Rose (em 2009) de fraudar o vestibular – outra pessoa fez a prova para ele. Depois da comprovação do falso teste, Memphis recebeu severas punições, entre elas: apagar as 38 vitórias da temporada 2007-08, apagar a participação do torneio da NCAA 2008 e devolver o dinheiro ganho pelo vice-campeonato.


Se Rose fizesse o vestibular, provavelmente não passaria. O negócio dele é jogar basquete, nunca foi estudar. O episódio serve para renascer a discussão se deve existir esta proibição de um jogador sair direto da escola para a NBA. A enganação de Rose foi encoberta pelas suas atuações magníficas com a camisa dos Bulls, justificando sua habilidade nata de jogar basquete. Foi um erro o que aconteceu em Memphis? Claro, mas quem nunca errou, atire a primeira pedra...

Recentemente (dia 20/01) foi divulgada a lista das camisas mais vendidas da NBA (baseada nas vendas do site e da loja oficial), que serve como um termômetro de popularidade. Rose, em seu segundo ano na associação, está na surreal 4ª posição, perdendo apenas para Dwight Howard (3º), LeBron James (2º) e Kobe Bryant (1º). Sua fama em Chicago é estrondosa e ficou clara nos playoffs da NHL do ano passado.

Era a semifinal da Conferência Oeste (Chicago Blackhawks versus Vancouver Canucks) no United Center, casa dos Bulls e Blackhawks. No ginásio estava o QB Jay Cutler, recente contratação do Chicago Bears; assim que ele apareceu no telão, os torcedores aplaudiram o jogador. Os jogadores dos Blackhawks entraram no gelo e os torcedores aplaudiram eles. Só que nada igualou aos gritos e aplausos que Rose recebeu quando foi fazer o lançamento cerimonial do puck.

Conseguir atingir a elite da NBA não é fácil - Rose tem só 21 anos. Entretanto ele faz por onde para honrar o contrato de US$ 31 milhões/5 anos: luta para tornar o Chicago Bulls competitivo e treina constantemente para aprimorar suas habilidades, usando seus recursos para abençoar sua mãe (tirando ela do perigoso bairro), a franquia e aqueles mais necessitados, tudo usando o dom que Deus lhe deu: jogar basquete.

(GL)



© 1 Charles Rex Arbogast / AP
© 2 Chad Griffith
© 3 Steve Bumbaugh

2 comentários:

João disse...

caramba estraguei a tela do pc..."Foi um erro o que aconteceu em Memphis? Claro, mas quem nunca errou, atire a primeira pedra..."
uahuahuah zuera =D
o rose eh sim um grande jogador mas eu nao acho que vai virar um kobe,lebron,durant,nash ou kidd....axo q ele vai ser um grande armador que faz mto pontos.....
Ultimamente andei vendo.....as medias do rick rubio nao sao altas para chamar atençao da nba....mas ele tem oque os armadores n tem hj...defesa e assistencia....TODOS os jogadores com menos de 3 anos de nba nao tem medias superiores a 7 ass.....oque mostra q os armadores de hj se preucupa em fazer pontos(como o iverson e Ford) ao inves de marcar e dar assistencias...

Daniel disse...

Esse é meu garoto, não importa o que aconteceu com os testes, o que importa é que ele está ajudando sua familia e os Bulls, meu time do coração!

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