Especial - A Idolatria Nossa de Cada Dia


Quanto vale um atleta que:

- Tem 5 títulos
- Ganhou o prêmio de melhor jogador em uma destas conquistas
- Foi eleito 11 vezes para o Jogo das Estrelas
- Ganhou o prêmio de melhor jogador em uma destas partidas
- Joga no mesmo clube há 16 anos e por 8 deles foi o capitão

(?)

Casey Close, empresário do Derek Jeter, jogador dono das citações expostas acima, acredita que seu cliente mereça renovar contrato com o New York Yankees baseado não somente nas performances mais recentes, mas sim no conjunto da obra que o shortstop construiu com a camisa número 2.

Camisa esta vista aos milhares na cidade de New York, muito mais quando há um jogo dos Yankees. A representatividade que Jeter tem para a franquia nova-iorquina é usada por Close como uma carta a mais nas negociações, na intenção de comover os diretores do retorno financeiro que um dos maiores ídolos da história do clube traz. Nesse momento entra o fanatismo do torcedor que coloca o nome do atleta na camisa do clube (que, originalmente, não tem), coloca o nome do atleta em bichos de estimação e trata o esportista como se fosse um ser mitológico que necessita de jantar grátis, estacionamento grátis e outras mordomias.

Se, então, Jeter aos 36 anos de idade e na parte final da carreira, vindo da sua pior temporada no ataque, pede um novo contrato em torno dos 100 milhões de dólares, os torcedores não devem achar um absurdo, pois ele utiliza as agraciáveis ações dos fãs para justificar um acordo acima da realidade. Os Yankees pensam diferente e adotam uma política mais lógica.

A oferta que Close entregou é de 24 milhões de dólares/ano por 4 temporadas. A proposta dos Yankees é de 15 milhões de dólares/ano por 3 temporadas. O lado do jogador não está disposto a recuar e, assim, recebeu um desafio dos diretores: buscar interesses de outros clubes que possam ter condições de bancar a proposta do New York.

Será muito mal sucedido e passará vergonha #ficaadica
Exemplo: Hanley Ramirez, SS do Florida Marlins, ganhou na temporada passada 7 milhões de dólares. Ramirez é dez anos mais novo que Jeter e se algum clube estiver disposto em gastar 100 milhões num SS, será em Ramirez e não em Jeter – vide Yankees.

Dinheiro não falta para o clube mais rico do beisebol, mas não é por isso que ele será gasto a revelia. Como um dos donos dos Yankees, Hal Steinbrenner, disse: “...tem jogadores ganhando mais que seus patrões...”; aconselhou o empresário de Jeter para enxergar a realidade e ter bom senso. Porém para Close sua oferta é (praticamente) irreversível e ressaltou com firmeza: “Os Yankees não estão, pelo meu ponto de vista, recompensando Jeter suficientemente por tudo que ele fez pelo clube e a tradição vitoriosa construída na última década e meia”


O tablóide “The New York Post” publicou uma montagem de Jeter com a camisa e boné do Boston Red Sox, grande rival dos Yankees. Se isto acontecer será um desastre para aqueles torcedores com as paredes das suas casas recheadas de pôsteres do camisa 2 e colecionadores de tudo que faz lembrar o ídolo Jeter. Para estes a tragédia virá e os responsáveis são eles próprios que depositaram uma confiança exagerada num ser humano como nós, em busca de interesses pessoais.

Essa situação de idolatria esportiva resulta em episódios tenebrosos, senão cômicos. Peço licença para compartilhar duas situações próximas a mim que servirá para uma melhor ilustração.

Em 2004 tive o privilégio de trabalhar na loja “Todo Poderoso Timão” no Parque São Jorge (bairro da cidade de São Paulo). No final daquele ano houve um alvoroço enorme no Sport Club Corinthians Paulista, porque rumores diziam que o argentino Carlitos Tevez, então estrela do Boca Juniors, seria a nova contratação do time para 2005. Quando a transação foi confirmada, nós presenciamos nascer a “Tevez Mania”, que chegou a proporções absurdas. Pais compravam kits para crianças (uniforme completo) e pediam que tirássemos a pequena camisa da caixa para gravar o nome Tevez nas costas. Foi um festival de “Sicrano Tevez”, “Beltrano Tevez” e várias emissoras de televisão foram conferir este fenômeno de perto.

Outro exemplo vem da cidade de Pesqueira, agreste de Pernambuco, local onde morei a trabalho por três anos. Um conhecido meu (bom de bola) se chama Lineker. O nome exótico e estranho para alguns teve sua explicação, pelo pai dele, em rede nacional. Uma matéria do programa “Globo Esporte” mostrou a origem do nome Lineker e dos seus outros dois irmãos: Breitner e Shilton – veja reportagem no vídeo abaixo.



Mesmo distante no tempo ou lugar, o fanatismo vive e se faz ativo. Nas ruas é possível ver camisas de clubes e de seleções desfilando com números e nomes personalizados. Qual o limite da admiração por realizações de determinada personagem esportiva e/ou time? Quando saber que o gostar passou a ser idolatrar?

Recentemente vimos o caso LeBron James. Pessoas nas ruas de Cleveland queimaram camisas número 23 do jogador, atual membro do Miami Heat. É uma ingênua ilusão acreditar que grandes astros vão permanecer para sempre no mesmo clube. Nas grandes ligas temos um exemplo clássico: Brett Favre com a camisa do Minnesota Vikings. Poucos, ou ninguém, acreditava que ele encerraria a carreira sem estar com o uniforme verde amarelo do Green Bay Packers, muito menos atuar no grande rival. Com Jeter pode acontecer o mesmo e o pesadelo estampado na contra-capa do “The New York Post” pode virar real.

Há os atletas que permanecem no mesmo clube no qual iniciou a carreira, e os exemplos são vários. Há aqueles que jogaram em vários rivais, mas mantém a identificação com um time (caso do meia Neto, por exemplo. ícone corinthiano que já vestiu as camisas do Palmeiras, São Paulo e Santos).

As mudanças devem ser consideradas naturais e não uma aberração. Fora do comum é o apego exacerbado a alguém praticante de um esporte por profissão, possuídores dos mesmos anseios que nós espectadores temos: fama, sucesso, prosperidade. Não são super heróis e nem almejam ser (apesar de alguns se acharem). Na verdade, nem desenhos à base de nanquim são confiáveis.



(GL)
Escrito por João da Paz


© 1 por Jeremy Chan

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