Neymar e LeBron James são os amores preferidos dos recalcados

Um beijinho no ombro não faz o recalque passar longe.

Nesta quinta, 12, inicia-se a competição esportiva mais importante do planeta: a Copa do Mundo. Realizada pela segunda vez no Brasil, a Copa-14 será mais um palco de cobrança para Neymar, camisa 10 da Seleção e responsável em dar o título ao país que perdeu a taça na Copa-50, sendo então derrotado na final pelo time do Uruguai.

Essa cobrança teria um ar de normalidade se fosse ela por si, mas não, vem com uma torcida contra e com um ódio inútil. Mesma situação passa LeBron James, melhor jogador da NBA, que paralelamente à Copa disputa as Finais em busca do seu terceiro título na carreira.

É possível explicar porque há tanta hostilidade contra Neymar e LeBon?

Sim.

Antes de virar gíria e ser presença comum em letras de funk, a palavra recalque já existia e o conceito não foi desenvolvido por qualquer um, apenas pelo pai da psicanálise, Sigmund Freud.

Existem duas definições interessantes sobre quem são e o que pensam os recalcados. No dicionário Aulete, recalque é um “mecanismo psicológico de defesa pelo qual desejos, sentimentos, lembranças que repugnam à mentalidade ou à formação do indivíduo são excluídos do domínio da consciência e conservados no inconsciente, continuando, assim, a fazer parte da atividade psíquica do indivíduo e a produzir nela certos distúrbios de maior ou menor gravidade”. Já para o dicionário Michaelis, é uma “exclusão inconsciente, do campo da consciência, de certas ideias, sentimentos e desejos que o indivíduo não quisera admitir e que todavia continuam a fazer parte de sua vida psíquica, podendo dar origem a graves distúrbios”.


O melhor jogador do Brasil


Neymar, 22, é a síntese do que todo homem gostaria de ser quando sonhava na infância chutando uma bola de plástico no quintal de casa: ser jogador de um time grande na Europa (Barcelona), camisa 10 da Seleção e astro do principal torneio de futebol do mundo, ainda mais no Brasil. Fora isso, é estrela de comerciais, patrocinado por marcas famosíssimas e faz sucesso com as mulheres.

Quem nega isso não quer admitir o sentimento de recalque. Mas ele existe. Evidente que o gostar de alguém ou não é inerente a cada ser, nem todos devem admirar o próximo somente porque sim. Neymar, contudo, é vítima desse sentimento que não vai passar, seja qual for seu sucesso dentro ou fora de campo. O recalque está enraizado naquele que o deixa brotar no seu íntimo, impedindo que a razão sobreponha opiniões vinda do inconsciente, externadas em forma de ódio – não aquele enfurecido, mas o brando, porém tão nocivo quanto.

Na última partida do Brasil antes da estreia da Copa, contra s Sérvia em São Paulo, Neymar saiu de campo no final do segundo tempo. A substituição veio com um mix de vaias e aplausos da arquibancada paulistana. E o Brasil estava vencendo...

Por que as vaias, então?

Quem o vaiou também não saberá dizer efetivamente o motivo. Foi um comportamento involuntário da lembrança de que “É preciso vaiar Neymar”. Daí vem a torcida para ele falhar, para não ir bem na Copa, para ser um fracasso. E isso vem dos próprios fanáticos brasileiros.

Kaká, em 2007, foi o último jogador do Brasil a ser escolhido o melhor do mundo. Antes dele, em 13 edições do prêmio dado pela Fifa ao melhor jogador de futebol do mundo, entre 1994 e 2006, sete vezes o Brasil teve um atleta em primeiro lugar (Romário, Rivaldo, Ronaldinho-2 vezes e Ronaldo-3 vezes). De 2008 a 2013, seis edições, o Brasil se quer teve um representante entre os três primeiros colocados.

Neymar é a chance real de o Brasil voltar a ter um melhor jogador do mundo. Até pode ser neste ano, vai depender do seu desempenho na Copa.

Um jogador completo, Neymar teve a oportunidade de ser o camisa 10 do Santos e trazer a taça Libertadores da América de volta ao litoral paulista, marcando gol na final, inclusive. Jovem, é a aposta do Barcelona para manter o clube espanhol em alta nas disputas europeias. É o camisa 10 da Seleção... E, em 340 jogos na carreira, marcou 200 gols, média altíssima de 0,6 gols por partida.

Ganha uma fortuna com comerciais dos mais diversos produtos. Não importa a razão, as mulheres estão em cima dele. A inveja vem de caras com a mesma idade de Neymar ou mais velhos. Todos frustrados porque queriam ser ele, mas não admitem.

Quem o admira são as crianças. Porém querem ser justamente o que Neymar é.

Sem recalque.


O melhor jogador (da história) da NBA


LeBron, 29, está a caminho de ser...

Aí entram os recalcados para impedir que a frase acima seja completa, pois ela “só pertence” a um jogador: Michael Jordan.

Essa defesa, literal e mental, vem por sentimentos fortalecidos na infância. Similar ao que acontece com Neymar, Jordan tem seus admiradores as pessoas que o acompanharam quando criança/adolescente. As imagens dele voando em quadra e convertendo cestas incríveis fincam lar no inconsciente, criando uma empatia mitológica que faz com que esqueçam os erros da “sua majestade”.

Jordan errou e teve suas falhas em quadra em tamanho proporcional a LeBron. Mas como um não viveu na era das overdoses dos números e outro sim, só LeBron é criticado de maneira exacerbada por seus tropeços em jogos importantes.

A ilusão criada pelo recalque de que Jordan foi imune ao erro e sempre atuou de forma infalível é perpetuada incorretamente. Em todas as seis temporadas que o Chicago Bulls, time de Jordan, foi vitorioso, o camisa 23 teve performances dúbias. Seja com números acima da média e mesmo assim os Bulls perderam, ou com atuações pífias e os Bulls venceram.

Alguns exemplos:

1991 – Jogo 3 contra o Philadelphia Sixers, Jordan marcou 46 pontos. Derrota dos Bulls.

1992 – Jogo 2 das Finais contra o Portland Trail Blazers, Jordan marcou 39 pontos. Derrota dos Bulls.

1993 – Jogo 2 contra o Cleveland Cavaliers, Jordan marcou 18 pontos em 31 minutos. Vitória dos Bulls... Jogo 3 e 5 das Finais contra o Phoenix Suns, Jordan marcou, respectivamente, 44 e 41 pontos. Derrota dos Bulls em ambas as partidas.

1996 – Jogo 3 contra o New York Knicks. Jordan marcou 46 pontos. Derrota dos Bulls... Jogo 3 contra o Orlando Magic. Jordan marcou 17 pontos em 39 minutos. Vitória dos Bulls.

1998 – Jogo 6 contra o Indiana Pacers. Jordan marcou 35 pontos. Derrota dos Bulls... Jogo 1 das Finais contra o Utah Jazz. Jordan marcou 33 pontos. Derrota dos Bulls.

Tudo isso, uma pequena amostra, para deixar claro que Jordan foi humano dentro de quadra. Os Bulls perdiam com ele jogando bem e venciam com ele jogando mal. Passou por situações comuns a outros grandes nomes da NBA. Contudo, recebe um tratamento como se suas falhas fossem meros pormenores.

E as de LeBron são sinais do apocalipse.

Não importa qual seja o resultado da sua quarta final seguida da NBA. Venha o título ou não, terá irrisória influência no resultado final de sua carreira. LeBron não precisa de sete títulos para ser maior que Jordan, afinal, outros jogadores tem mais anéis de campeão o que os dois juntos. Outros jogadores marcaram mais pontos que Jordan na carreira, mais assistências, mais rebotes, com melhor aproveitamento de quadra...

Jordan é a figura que transformou a NBA, ele foi a cara da globalização da liga. Seu talento e qualidade são inquestionáveis. Mas o título de melhor jogador da história da NBA não. Para ele, ficará o honroso rótulo de melhor cestinha de todos os tempos do basquete.

LeBron, um jogador mais completo e eficiente em todos os aspectos do jogo, caminha para destronar “sua majestade”.

O recalque vem para tentar desmentir.

A ladainha formada em torno de “Jordan, o melhor jogador da história da NBA” é dita ininterruptamente pelos recalcados. Mas vai exaurir. A psicanalista Maria Rita Kehl, em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em 24 de março de 2013, intitulado “A verdade e o recalque”, define bem o que se passa na mente de quem é invejoso e ranzinza, que vive longe de parâmetros reais e é abastecido por devaneios:

A fantasia recalcada revela que a verdade psíquica é capaz de libertar o neurótico das repetições sintomáticas”.

E a neurose nada mais é do que expressões simbólicas de um conflito psíquico enraizado na história infantojuvenil de cada ser humano.

(GL)
Escrito por João da Paz

Um comentário:

gislaine siqueira disse...

Eu acompanho seus textos escritos aqui com certa frequencia e desde já te parabenizo pelo ótimo trabalho e profundo conhecimento.

Seu embasamento é excelente, a dialética então, nem se fala.

Contudo, não posso concordar com algumas coisas. Ok, o Neymar é o jogador mais espetacular nascido no Brasil, na posição do ataque, em atividade no futebol mundial no presente momento. Isso é indiscutível e, o fenômeno midiático dele é ainda maior. Mas, claramente é um jogador que ainda precisa evoluir, precisa melhorar sua visão de jogo (Didi, Puskas, Maradona, Pirlo), a escolha entre o drible e o passe (Rivelino, Xavi, Iniesta, Messi) e a capacidade de tornar o time onde ele está jogando, num time melhor (Pelé, Beckenbauer, Cruyff, Zico). Atendidas essas três questões, certamente ele será o melhor de todos os tempos, pq ele possui habilidade, finalização, velocidade, drible e inteligência, para tal.

A questão do Lebron é um pouco diferente, pq ele já tem tudo para ser o melhor de todos os tempos, mas infelizmente surgiu um outro jogador e foi simplesmente melhor que ele, mesmo não sendo a mesma aberração física que o nosso querido jogador de Miami. Sim, Jordan foi ainda maior do que Lebron jamais será e não se trata de recalque, números, estatísticas, títulos, vitórias ou qualquer outra coisa. É algo que é, simplesmente porque é. E não adianta aqui dizer que antes as coisas eram diferentes, pq o time de Detroit com Isiah e companhia entrava em quadra pra "matar" o Jordan. Não adianta dizer que as regras de faltas eram diferentes e que a NBA era mais física. Não adianta dizer que ele enfrentou gênios absolutos como Stockton, Magic Johnson, Larry Bird, entre outros. Não adianta dizer que ele era o queridinho dos árbitros, viciado em jogo e mulheres e que quase ferrou sua carreira indo jogar pessimamente baseball. Jordan é mais q Robertson, Chamberlain, Russell, Kobe ou Magic simplesmente pq ele é a encarnação física do que mais amamos no basquete.

Aonde fica o Lebron então? Fica no imaginário de todos nós como o melhor jogador em atividade deste esporte que amamos, como o maior ala e provavelmente como o principal marcador de DDs na história da NBA. E isto jamais será pouca coisa.

Postar um comentário