Competitivo e Eficiente


29 de Maio, o dia que mudou a história do Colorado Rockies nesta temporada. Esta data marca o início da era Jim Tracy como treinador da equipe. Desde então o time venceu 23 vezes e perdeu 9 – antes o time tinha 18 vitórias e 28 derrotas; deixou o último lugar da divisão Oeste da Liga Nacional para brigar por uma vaga na repescagem.

E Jim Tracy é responsável por esta mudança.

Ele assumiu o posto de treinador quando Clint Hurdle saiu da organização. Tracy traz a experiência de fracassos em dois campeonatos com o Pittsburgh e sucessos em Los Angeles (com os Dodgers, quando conseguiu um título de divisão – 2004 – em cinco temporadas).

A primeira ordem de Tracy foi a mais simples possível:

Eu apenas orientei eles para jogarem corretamente. Pedi que jogassem sem egoísmo e com mais agressividade no ataque. Eles estão fazendo um ótimo trabalho executando isto” Disse Tracy ao The Seattle Times, revelando um pouco sobre o “segredo” do sucesso.

O sonho dos jogadores é ter este tipo de comando: alguém experiente para poder auxiliá-los em algo mais complexo, mas que os deixe “jogar o jogo”. Quanto menos invenções, melhor. Em muitos casos esta é a melhor solução: fazer as coisas se tornarem menos complicadas.

Definitivamente estamos jogando com mais confiança agora” diz Troy Tulowitzki SS dos Rockies. Esta pluralidade que ele menciona faz sentido. Hoje o elenco é a principal força da equipe.

O mês passado foi fantástico para o Colorado. 21 vitórias e 7 derrotas com o time liderando as estatísticas ofensivas da Liga Nacional em Junho: 154 corridas, 266 rebatidas, 39 HR´s, 146 RBI´s . Enquanto isso é difícil achar o melhor “Rockie” colocado na votação para o Jogo das Estrelas; Brad Hawpe (foto abaixo), OF, tem o nome mais cotado para ser, no máximo, reserva. Ele é o líder do time em aproveitamento (.333) e RBI´s (56).


Para que o time chegasse a este ponto de eficiência coletiva, Jim Tracy precisou fazer algumas mudanças na escalação, tudo em benefício do conjunto. Ele efetivou Clint Barnes na segunda base e o colocou na 2ª posição na linha de rebatedores. Esta mudança fez com que Barnes rebatasse 37 bolas no mês de Junho (4º da LN), dividindo espaço com Hanley Ramirez, David Wright e Ryan Braun.

Outra mudança substancial de Tracy foi colocar Ian Stewart na terceira base e mandar Garret Atkins, herói da campanha de 2007, para o banco. Atkins era o jogador protegido de Hurdle, mas agora deve ser usado como peça de troca, já que os Rockies o colocaram na “vitrine” de negociações.

Enquanto aos questionamentos se de fato o Colorado é competitivo, as últimas performances mostram que sim. Sob o comando de Tracy, a equipe venceu adversários que pertencem à elite da MLB: Cardinals (quatro vezes), Rays (duas vezes), Brewers (quatro vezes) e Angels (uma vez). A confirmação de fato veio na última série que a equipe teve contra os Dodgers em Los Angeles, líder da divisão Oeste da LN, a mesma do Rockies.

Os Dodgers venceram duas partidas: uma na 13ª entrada e outra por 1 a 0. O outro jogo ficou com os Rockies em uma noite primorosa do arremessador Jason Marquis. Ele completou o jogo com apenas 86 arremessos e o Colorado venceu por 3 a 0. Marquis foi o primeiro jogador da LN a atingir dez vitórias. Assim, os Rockies são o primeiro time, desde o New York Mets de 1985, a ter os arremessadores titulares com 19 vitórias em um único mês.

Mais um dado interessante: Quando sai na frente no placar, os Rockies tem 29v e 6d, melhor número da MLB. Mostra que a equipe sabe defender o resultado e manter a vantagem.

Daqui pra frente, a missão de Tracy é buscar a liderança da repescagem. O líder (até 03/07) é o rival de divisão San Francisco Giants. A próxima série entre as equipes será no final de Julho (24, 25 e 26 em San Francisco). Até lá, os Rockies não terão tanta dificuldade assim para continuar com este momento de vitórias; pode ter problemas na série antes do Jogo das Estrelas contra o Atlanta Braves em Colorado.


Jim Tracy (foto acima) criou uma nova atmosfera em um clube que estava com o ânimo em baixa. O verbo que mais é pronunciado entre os jogadores dos Rockies é “divertir”. Com a palavra, Jason Marquis, após o mais recente jogo contra os Dodgers: “Nós estamos jogando beisebol da maneira que tem que ser e estamos nos divertindo muito”.

Diversão. Talvez este seja o “segredo” de Tracy para a eficiência e competitividade do Colorado. O resultado disto está sendo computado em vitórias.


© 1 Michael Sackett / US Presswire
© 2 Will Powers / AP

Às Cores Quando Não Há Palavras


Definir o que é dislexia é complicado. Segundo a Associação Brasileira de Dislexia (ABD), é “...um distúrbio de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração.” Lidar com ela também é complicado, mas Rex Ryan, treinador do New York Jets, mostra que é mais um que conseguiu superá-la.

Ryan, que pela primeira vez assume o comando técnico de uma equipe, revelou no mês passado ao público que sofre de dislexia, algo que o acompanha desde criança. Resolveu deixar claro para os torcedores e para seus atletas que tem este problema para “...o que aconteceu comigo sirva de inspiração para eles, que é possível passar por situações delicadas que a vida nos coloca. Eu fico feliz em dividir isto com eles. Quero que as pessoas saibam que você pode ter dislexia e conseguir atingir seus objetivos”. disse o treinador.

Recentemente, a novela “Duas Caras” da Rede Globo mostrou uma personagem que sofria de dislexia. Clarissa (foto ao lado), interpretada por Barbara Borges, enfrentava problemas na escola, tendo que se dedicar mais do que os outros alunos; passou no vestibular com ajuda da mãe, Célia Mara, interpretada por Renata Sorrah. O disléxico tem dificuldades com as palavras (“dis” = difícil; “lexis”= palavra, vem do grego), dificuldades com a ortografia, dificuldade em assimilar símbolos matemáticos... O trauma de sofrer preconceito na escola retratado em “Duas Caras”, se assemelha com o que ocorreu com Ryan.

Eu fugia da escola todo o tempo” afirma Rex. Na época ele ainda não sabia que era disléxico, foi descobrir a um tempo atrás. Mesmo sem conhecer o que era direito, nada foi obstáculo para ele conseguir um diploma universitário.

Dizem que a dislexia é hereditária. Na família de Ryan, um diploma é também hereditário. Sua mãe, Doris, é doutorada em educação e Vice-Presidente da Universidade de New Brunswick no Canadá; seu pai, Buddy, é um acadêmico da Universidade de Oklahoma e famoso treinador da NFL – criou e desenvolveu a “defesa 46”; seu irmão mais velho, Jim, é formado em direito e jornalismo.

Para manter a tradição, Rex Ryan tem um bacharelado em Ciência e uma graduação em Educação Física. A dislexia foi mais uma vez derrotada.

Ryan entrou na NFL com a ajuda do pai, que o colocou como treinador da linha defensiva e dos linebackers no Arizona Cardinals em 1994-95, período que Buddy foi treinador do clube. Em 1999 ele chega a Baltimore para comandar a linha defensiva do Ravens, é promovido para a coordenação defensiva em 2005. Ficou por 10 temporadas comandando uma das melhores defesas da história da NFL, fato que o ajudou a ir para New York.

Os torcedores do Jets esperam que Ryan mude a cara da franquia; nesta questão ele já está trabalhando – o clima no clube é totalmente diferente de anos anteriores. Ele criou um ambiente mais leve entre os atletas, a atmosfera agora é outra: Ryan quer que os jogadores se divirtam. Tudo isso será interessante de se observar até Setembro, Outubro. Se não conseguir, vencer jogos...

Entretanto, Ryan sabe da meta que tem a cumprir: vencer o Super Bowl. Declarações do tipo “Eu não vim aqui para beijar os anéis de Belichick” ou “Esta franquia é muito grande para lutar por um aproveitamento de 50%” mostram aos fãs dos Jets que a história este ano promete ser outra. A esperança é que Ryan consiga aplicar sua filosofia intimidadora do seu sistema defensivo de “blitz-a-todo-tempo-com-violência-e-agressivdidade” na qual ele teve sucesso em Baltimore.

Se conseguir atingir esta meta (ganhar o campeonato), será uma conquista extremamente marcante. O último (e único) título do New York Jets foi em 1968. Alcançando este feito, Rex Ryan poderá entrar na lista de disléxicos famosos como: Tom Cruise, Walt Disney, Agatha Christie, Albert Einstein, Wilson Churchil, George Washington, Pablo Picasso...


Independente da vitória dentro de campo, por chegar onde está hoje, é claro que Rex Ryan já é um vencedor. Ele expõe sua história para servir de inspiração, exemplo. Pense como deve ser difícil para ele memorizar todas as jogadas da equipe, com todos aqueles códigos e siglas... Esta aí mais uma derrota da dislexia:

Eu tenho dificuldade com palavras, em pronunciá-las, em lê-las...” disse Ryan à Associated Press (AP) “Então, meu plyabook (fichário de jogadas) não tem nenhuma sigla e nenhum número. Ele é cheio de cores porque assim eu decoro melhor as jogadas.”

Entre tantas dúvidas e questionamentos acerca de como o "time verde de New York" se comportará nesta temporada, uma coisa é certa: o futuro dos Jets, com Rex Ryan no comando, tem tudo para sair da neutralidade e ser mais colorido.


©1 Andy Marlin / Getty Images
© 2 Al Pereira / Getty Images

Adversárias Invisíveis


Beisebol é um esporte simples: quem defende arremessa a bola com o maior efeito possível e quem ataca rebate o mais longe que puder. A grande maioria dos jogadores da MLB raciocina desta forma; dizem que se alguém entrar em campo “pensando demais” não conseguirá render em alto nível. Quanto mais simples, mais básico, melhor.

Por que então três jogadores, somente nesta temporada (Dontrelle Willis – AT, Detroit Tigers; Khalil Greene 'foto acima' – 3B, Saint Louis Cardinals e Joey Votto – 1B Cincinnatti Reds) entraram no Departamento Médico (DM) por “questões de estresse”?

Se um jogador machuca o braço, por exemplo, o tratamento é fácil: ele faz uma ressonância magnética, a lesão é diagnosticada e entra em processo de recuperação. Agora, e se o problema for psicológico, o que fazer?

Ansiedade, depressão, temor; estes são alguns sintomas da chamada: fobia social, algo que Zack Greinke, arremessador dos Royals, teve que lidar em sua carreira (leia “Agora, Vai?”). Muitas pessoas não entendem que tal estado emocional é uma doença grave e que é mais séria do que se imagina.

Eu pensei que ia morrer” disse Joey Votto (foto ao lado) em entrevista coletiva na semana passada ao voltar do DM. “Liguei para a emergência às quatro horas da manhã. Foi o momento mais aterrorizante que passei em toda minha vida” - o jogador de 25 anos dos Reds relata o que aconteceu com ele no começo deste mês.

O pai de Votto morreu em Agosto de 2008. Por ser o irmão mais velho, ele sente a responsabilidade de ser o “homem” da casa. Conseguiu lidar com isto por um tempo, mas a depressão o atacou de vez na pré-temporada deste ano. A situação ficou mais grave quando, no início do campeonato, ele teve que sair de três jogos por estresse; antes de ir para o DM, Votto rebateu 35% com 33 RBIs em 38 jogos.

Depois de permanecer 21 dias no DM, Votto já fez 6 jogos: aproveitamento no bastão de 33% com 4 RBIs.

Esta atitude de Votto é extremamente louvável; aparecer para o público e dizer que passou por problemas sérios de depressão e que precisou de ajuda para melhorar. Reconhecer que a fobia social é uma doença é o primeiro passo para a recuperação, negar o caso pode ser pior.

Exatamente o que aconteceu com Dontrelle Willis. (foto à esq.)

Não é depressão, é outra coisa diferente. Os médicos viram algo no meu sangue que eles não gostaram. Eu não sou louco, apesar de meus companheiros acharem que sim...”. Disse Willis depois de ser colocado pelos Tigers no DM no dia 29 de Março e ficar dois meses inativo.

Não é a toa que Willis foi duas vezes para o DM por os mesmos sintomas – a outra foi dia 18 de Junho. Ou, por “coisas que os doutores observaram no meu sangue e não gostaram”. Se não reconhece o problema, como tratá-lo?

Na sua segunda ida ao DM, quando repórteres perguntaram a ele se seu problema era mecânico ou mental, Willis respondeu: “Eu sinto que é mecânico. Percebo que o movimento do meu braço está um pouco fora do comum.”

Quando, no mesmo dia, os repórteres perguntaram ao médico do Detroit, Kevin Rand, se o problema era mecânico ou mental, ele respondeu: “Fisicamente, Willis está bem. Há períodos nos jogos que ele arremessa bem, mas falta a consistência ideal.”

Willis jogou 7 partidas neste ano: 1v e 4d com um ERA de 7.49.

Deixar que os companheiros de time saibam da sua doença, não é mostrar a eles seu atestado de “loucura” (viu Willis?) e sim é um modo de terapia que ajuda na recuperação. “Quando você tem um problema interno você que expor, colocar pra fora” disse Albert Pujols ao USA Today, ele que é parte importante do tratamento de Khalil Greene.

Os Cardinals colocaram Greene (foto ao lado) no DM dia 29 de Junho e lá ele ficou por 19 dias. Greene também tem problemas de depressão a tempos, mas, segundo o jogador, “...só tive sintomas mais forte nesta temporada...”. Ele passou por inúmeros médicos e toma diversos medicamentos, contudo a meta principal depende dele, responsável por tirar os pensamentos ruins e substituí-los por pensamentos positivos.

A franquia o ajuda bastante, dando todo o apoio para sua recuperação total. Apesar de ser SS de origem, Tony La Russa, treinador dos Cardinals, o colocou na 3B para aliviá-lo da pressão e da responsabilidade que é jogar entre a segunda e terceira base. Todos os colegas de time, liderados por Pujols, o ajudam na medida do possível.

O testemunho de Votto e Greene pode colaborar para que outros atletas venham a falar que sofrem de fobia social, de depressão, de ansiedade... Eles são exemplos de que é preciso reconhecer a doença, que este é o primeiro passo para ser curado. Servem como modelos de coragem por mostrar que tem falhas como qualquer outro ser humano e que é preciso ter cuidado com estas adversárias invisíveis que nunca devem ser subestimadas.



© 1 Christian Petersen / Getty Images